Temer, de alternativa a referência

Temer, de alternativa a referência

Aliados de vice buscam criar um mínimo de consenso para ele assumir o Palácio do Planalto no caso de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Unificação passa por movimentos para dentro e fora do PMDB

Ricardo Brito e Adriana Fernandes

07 de dezembro de 2015 | 12h16

Michel Temer e Renan Calheiros (Ueslei Marcelino - Reuters)

Michel Temer e Renan Calheiros (Ueslei Marcelino – Reuters)

Seja em conversas reservadas ou por meio de aliados próximos no partido e no Congresso, o vice-presidente Michel Temer busca criar um mínimo de consenso político para assumir o Palácio do Planalto no caso de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Essa unificação passa por movimentos para dentro e fora do PMDB, partido que preside e que também comanda as duas Casas Legislativas.

Internamente, o maior desafio do grupo de Temer é buscar apoio do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), com quem sempre disputou espaço na legenda. Em conversas na última semana, Renan tem demonstrado irritação com as investigações da Lava Jato que o envolvem – é alvo de cinco inquéritos. Tempos atrás, ele já defendeu o nome do vice para o Ministério da Justiça, como se no cargo pudesse ajudá-lo.

Renan chegou até a discutir com aliados se, em troca de apoio à Dilma, atuaria para convocar no recesso o Congresso para acelerar a votação do impedimento. É o que o Planalto quer, mas não o que oposição e a base pró-impeachment desejam. Renan – o principal aliado da presidente no partido mas que desde a Lava Jato o atingiu não faz indicações para o governo da petista – pende até o momento para a segunda opção.

No PMDB do Senado, Temer já conta com a simpatia de Romero Jucá (PMDB-RR) – que votou no tucano Aécio Neves (MG) e acredita que a presidente será afastada – e ainda tem ótima relação com o líder do partido na Casa, Eunício Oliveira (CE), que é tesoureiro nacional da legenda, embora este também tenha canal de acesso livre com Dilma.

No lado da Câmara, operadores de Temer e o próprio presidente da Casa, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), terão de se contrapor à ascendência sobre a bancada do líder do partido na Casa, Leonardo Picciani (RJ), que emplacou dois ministros e pode fazer o substituto do demissionário da Aviação Civil, Eliseu Padilha (RS), até então o maior aliado do vice na Esplanada. Picciani é decisivo na indicação dos integrantes para a comissão do impeachment.

Fora do PMDB, o grupo do vice costura respaldo político-empresarial para o caso de Temer assumir. Ele passará pelos seus primeiros testes públicos com parte significativa do PIB nesta segunda-feira (7) em São Paulo: reuniões num evento da Grupo Lide (Líderes Empresariais) com o governador paulista, o tucano Geraldo Alckmin, que nunca foi dos maiores entusiastas do impeachment; e um evento na Fecomércio.

Temer conta com uma plataforma mínima de governo, o documento “Uma Ponte para o Futuro”, com a defesa de importantes reformas como a da Previdência. Para mostrar também compromisso com austeridade fiscal, aliados ventilam o nome do ex-presidente do Banco Central e ex-integrante do partido Henrique Meirelles para o Ministério da Fazenda.

Seu grupo quer atrair a oposição para um governo de transição até as eleições de 2018 – o senador tucano José Serra (SP) é um dos principais entusiastas. No empresariado, o presidente da Fiesp e filiado ao PMDB, Paulo Skaf – opositor ferrenho do ajuste de Dilma -, é outro importante quadro nessa tarefa.

Até a decisão do plenário da Câmara – se afasta ou não Dilma -, o vice não deve dar nenhuma demonstração pública sobre suas intenções de comandar o País. Mas, pela falta de defesa pública da presidente, fica evidente a construção de um caminho para que Temer se torne a partir da alternativa uma referência.

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PS (às 12h42 desta segunda-feira): Temer desistiu de participar do evento da Lide ao lado de Alckmin.

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