Votação do pré-sal é prenúncio de descolamento do PT

Votação do pré-sal é prenúncio de descolamento do PT

Senadores petistas contrariam negociação do Planalto e votam contra mudança nas regras de exploração da camada petrolífera, numa demonstração dissonância entre partido e governo

Ricardo Brito e Adriana Fernandes

25 Fevereiro 2016 | 12h59

(Humberto Costa/André Dusek-Estadão)

(Humberto Costa/André Dusek-Estadão)

A decisão do PT do Senado de votar em peso contra a proposta negociada pelo Palácio do Planalto no projeto que acaba com a obrigatoriedade de a Petrobras ser operadora exclusiva na exploração do pré-sal prenuncia um descolamento do partido em relação ao governo da presidente Dilma Rousseff que pode ter reflexos em importantes discussões futuras, inclusive em outras votações de matérias econômicas. Na bancada de 13 senadores, 10 participaram da votação e nove deles foram contrários ao acerto patrocinado por ministros palacianos com o PMDB.

O líder do PT na Casa, Humberto Costa (PE), no dia da sua estreia na liderança do governo no Senado, preferiu se abster na votação – embora tenha dito que sua vontade também era votar contra. Costa ficou na embaraçosa situação de orientar a bancada do PT contra o Executivo, mesmo estando por dentro de todo o acerto costurado.

A surpresa maior é que a bancada de senadores sempre teve uma atuação mais alinhada com o Planalto e, exceto por pontuais divergências, apoiou maciçamente a primeira etapa do ajuste fiscal em 2015. Bem diferente da postura adotada pelos deputados petistas que, cobrados pelo PMDB, tiveram de ser enquadrados pelo governo para votar a contragosto a favor do ajuste.

O PT da Câmara, Casa Legislativa para onde seguirá o projeto do pré-sal, deu sinais anteriormente que também será contrário à propostas.

O distanciamento dos parlamentares petistas ocorre num momento paradoxal para o partido que subiu a rampa do Planalto há 13 anos – simbolicamente o número da legenda. Na política, Dilma voltou a ficar sob pressão do afastamento após a prisão do marqueteiro da sua campanha, João Santana e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o maior líder do PT, vê um cerco de investigações oficiais se fechar contra si mesmo – o que reduz o tempo e sua força para ajudar a presidente a reagir.

Na economia, Dilma quer levar à frente o quanto antes a reforma da Previdência a fim de acabar com o engessamento do orçamento público para as próximas gerações e acenar com uma reversão das negativas expectativas. Mas, ao contrário da posição do Ministério da Fazenda, os petistas do Congresso têm dito que essa não é uma prioridade para eles – em que contam com o respaldo do coordenador da reforma da Previdência, o ministro da Secretaria de Governo, Ricardo Berzoini, ex-ministro da pasta e ex-presidente do PT.

Contrariada com o partido, a presidente ameaça não ir à festa de 36 anos do partido este sábado, no Rio. Em meio às crises, a urgência na tomada de decisões é premente, queira o PT ou não concordar com o governo do PT.

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