A Olimpíada da vida real

Regina Augusto

19 de agosto de 2016 | 15h04

 

A Rio 2016 está chegando ao fim e um misto de sentimentos começa a surgir. A primeira sensação é de alegria, satisfação e orgulho. Conseguimos mostrar ao mundo – e, principalmente, a nós mesmos -, que somos capazes, que sabemos fazer acontecer a despeito de todas as enormes dificuldades que enfrentamos. E, claro, já começamos a ficar um pouco de ressaca por ter de voltar, a partir da próxima segunda-feira, à nossa dura realidade, sem homens relâmpagos nem homens peixe, sem chama na Candelária brilhando com uma escultura estonteante ao fundo, sem gringos simpáticos e alguns, até bem escrotinhos, sem o mundo todo olhando para a gente 24 horas por dia.

 

Muito já se falou e continuará se falando dessas Olimpíadas. Uma boa parte da imprensa nacional centra seu foco sobre como o mundo está olhando para cá e como os Jogos foram capazes de reverter expectativas. O meu ponto aqui é outro. Finalmente, com medalha de ouro, o maior evento esportivo do planeta conseguirá ser um turning point para o Brasil do ponto de vista de resgate da autoconfiança. O fosso que adentramos desde a Copa do Mundo tinha submergido uma boa parte da nossa esperança e da nossa capacidade crítica. Desde a estonteante abertura dos Jogos, no dia 5, no entanto, fomos arrebatados por uma até então esquecida capacidade de resiliência que ficou escancarada desde que os Jogos Olímpicos tiveram início.

 

A morte de João Havelange, no último dia 16, em plena Rio 2016 e na cidade que o lançou ao mundo pelo seu time do coração, o Fluminense, é mais um daqueles golpes implacáveis da realidade. O homem que durante várias décadas foi o todo poderoso do futebol no mundo, símbolo maior da cartolagem, convivendo abertamente com diversas denúncias de corrupção em sua gestão e na de seu ex-genro, Ricardo Teixeira, morreu aos 100 anos. Ironia maior não poderia haver. Antes de se tornar dirigente, Havelange construiu uma história de sucesso como atleta. Disputou diversos esportes e destacou-se, primeiro na natação, e depois no polo aquático.

Na mesma madrugada em que Havelange deixou este mundo, Elke Maravilha também veio a falecer. Dois grandes símbolos de um Brasil multifacetado. O Brasil das elites podres e corruptas e o Brasil das manifestações populares e autênticas. O Brasil da impunidade e arrogância e o Brasil das figuras públicas originais e queridas. O Brasil que está sendo passado a limpo e o Brasil que teima em mostrar ao mundo que é mais do que uma caricatura.

Felizmente, a Rio 2016 está mostrando ao mundo o triunfo desse segundo Brasil. Um país com diferenças sociais abissais e com muitos problemas estruturais, mas com uma capacidade de realização invejável. A presença ostensiva dos homens do Exército nas ruas e em locais públicos do Rio ostentando suas armas de fogo destoa um pouco do clima olímpico. Mas é assim que somos: contraditórios. O soft power que tanto foi propalado como uma de nossas fortalezas para fazer a diferença no mundo está se mostrando ser mais do que mera bullshitagem. A reação à crítica negativa do New York Times à culinária carioca e ao seu símbolo maior, o biscoito Globo, é um grande reflexo dessa característica. O post da empresa fabricante do biscoito de polvilho é uma resposta que simboliza nossa alma vira lata.

A vergonha dos nadadores norte-americanos que mentiram deslavadamente ao inventar um assalto fictício para encobrir suas traquinagens nada olímpicas coloca um caldo a mais nesse caldeirão de emoções, turbulências e espetáculo que dão um sabor especial a esses Jogos Olímpicos. A questão de gênero e a bandeira LGBT também fizeram parte da pauta desta Olimpíada que já na sua abertura carregou de forma inédita sua veia politizada. Na Rio 2016, 44 atletas se declararam abertamente gays. Em 2012, eram 23.

Um roteiro com muitos atos, com muitas estrelas e muito ouro. Passado o ciclo dos grandes eventos esportivos no Brasil, a sensação que fica é que não seremos mais os mesmos a partir de agora. Expusemos ao mundo todas as nossas fragilidades, ao mesmo tempo em que também deixamos claro ao planeta no que somos bons e fortes: lidamos com a vida real e com os seus problemas de frente.

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