Lidando com o imponderável

Lidando com o imponderável

Regina Augusto

16 Junho 2016 | 11h15

Recebi essa semana os ingressos para a Rio 2016 cujos sorteios ocorreram exatamente um ano atrás. Tive algumas sensações ao pegar os kits de toda a família para as três competições que iremos assistir. A primeira foi de alegria e expectativa, afinal Olimpíada é Olimpíada e poder levar meus filhos ao maior evento esportivo do planeta tão jovens e no nosso país é algo muito bacana e memorável.

Ingressos Olimpiada

O segundo sentimento, porém, foi um pouco mais complexo e com gosto meio amargo. Fiz um retrospecto dos últimos quatro anos. Me lembrei exatamente de como eu estava e de como o Brasil se encontrava naquele momento. Estava grávida às vésperas da Olímpiada de Londres, minha filha mais nova nasceu exatamente durante os jogos. Estávamos eufóricos – eu e o meu marido. Afinal, ele estava cobrindo havia quase um ano toda a preparação da competição que iria acontecer no seu país natal, iria ser pai pela segunda vez e estava na iminência de embarcar para a Inglaterra, onde só poderia ficar até a cerimônia de abertura para poder voltar a tempo da chegada da pequena Candy. Relembrar essa parte da nossa história foi incrível.

No entanto, também me vieram claramente à mente o clima e a atmosfera daquele Brasil de 2012. Já estávamos em um ritmo de crescimento menor em comparação àquele celebrado dois anos antes, mas nada que anunciasse as nuvens negras que se sucederiam. Tínhamos planos e projetos e uma autoestima ainda inflada com a proximidade de Copa do Mundo e da Olimpíada. Havia esperança no ar.

Aí chegou 2013 com suas manifestações surpreendentes de junho, o grande turning point do cenário social e político brasileiro. No ano seguinte, veio a tão criticada Copa do Mundo com seu inacreditável 7 X 1. Era o prenúncio em letras garrafais de que o pior estava por vir. Acabaram-se os mitos. Nossas esperanças e até nossa identidade começavam a despencar ladeira abaixo. De uma hora para outra batemos de cara contra a parede. O ar estava ficando rarefeito.

Fomos jogados em um 2015 que deixou claro que nossa euforia era sustentada sob bases muito frágeis. A realidade se apresentou implacável. Crua e dura. E aqui estamos nesse 2016 do Impeachment, um revival melancólico de ter que andar para trás várias casinhas que achávamos que tinham ficado definitivamente lá no século passado.

As Olímpiadas do Brasil estão aí batendo à nossa porta e não conseguem despertar fortes emoções como estava previsto em um roteiro que foi reescrito à força pelo imponderável. A agenda política e econômica da crise tendo a corrupção como pano de fundo dragou esperanças trazendo à tona um horizonte muito volátil.

Hoje, como gestora de uma pequena empresa e consultora de comunicação sou obrigada a traçar cenários e a ajudar meus clientes nessa tarefa hercúlea que se tornou quase um ato de esquizofrenia. Afinal de contas, empreender no Brasil é um grande ato de teimosia e insanidade. Precisamos traçar uma linha paralela aos P&Ls da vida, onde possamos colocar nossos projetos e sonhos e tocá-los à revelia dos dados alarmantes e assustadores que se apresentam.

Há empresas abrindo fábricas nesse exato momento, há setores que estão em crescimento, o câmbio atual favorece os exportadores e há até quem está criando vagas de trabalho. É necessário trabalhar em dobro para chegar no final do ano e as coisas continuarem exatamente onde estavam dozes meses antes. E há, claro, quem está encolhendo de verdade e tendo que fechar as portas.

O que fica claro é que a crise atual pega as pessoas – físicas e jurídicas – de maneiras diferentes. Nos meus muitos anos de terapia, costumava ouvir do meu psicólogo que as crises não são as grandes causas dos problemas. Elas apenas tornam evidentes problemas que estavam ali debaixo do tapete ou que foram sendo empurrados muito tempo com a barriga. De repente, não dá mais para adiar e temos que lidar com tudo de uma só vez.

Foi exatamente isso o que ocorreu com o Brasil. Estamos agora diante de todas as nossas mazelas e fragilidades históricas expostas e escancaradas em praça pública. Sem disfarce, doa a quem doer.

Olhando para nossa vida pessoal, profissional e empresarial há um grande aprendizado nessas vésperas da Rio 2016. Não estávamos tão bem quanto supostamente acreditávamos estar e também não estamos tão mal como as coisas hoje aparentemente se apresentam. Que venham os Jogos e que eles sejam de verdade uma grande festa. Tudo indica que a partir deles, o Brasil entrará em uma outra fase: mais dura e também mais real.