Mais um presente de Bowie no seu aniversário

Regina Augusto

08 de janeiro de 2016 | 08h18

Um dos meus maiores ídolos do mundo pop faz aniversário hoje dia 8: David Bowie. (A data, aliás, é pródiga em produzir talentos musicais. Elvis Presley também nasceu nesse dia). Assim como fez em 2013, quando rompeu um silêncio de dez anos e lançou o consagrado álbum The Next Day de forma totalmente inovadora ao disponibilizar separadamente os dois primeiros singles inicialmente para só depois revelar todas as faixas do elogiadíssimo trabalho, o artista inglês agora volta com Blackstar.

A data é o mesmo 8 de janeiro. Segundo reportagem de Pedro Antunes, publicada no Caderno 2 da quarta 6, o que muda agora é que o camaleão mostra uma face mais experimental, vanguardista, mais jazz do que rock.

O ex-estagiário de uma agência de publicidade no charmoso bairro londrino de Mayfair, em meados dos anos 60, absorveu conceitos dessa fase que carregou ao longo de toda sua rica trajetória musical. Transformou-se em ícone da cultura pop, ditou tendências que extrapolam a música como todo bom fenômeno cultural e sempre geriu sua carreira com uma visão estratégica assustadoramente assertiva.

Em tempos de celebridades instantâneas surgidas na esteira da profusão das redes sociais cujo mote principal é aparecer a qualquer custo, Bowie mostra que atravessar o tempo com consistência e elegância é para poucos.

A indústria fonográfica foi uma das primeiras a ser fortemente impactada pela revolução digital a ponto de ter que ser totalmente reinventada. A relação entre artistas e seu público passou a não depender mais de intermediários – as gravadoras – e a partir de então começou uma nova lógica no consumo de músicas inicialmente via download e mais recentemente via streaming fazendo surgir novas empresas ou serviços como Apple Music, Google, Spotify, Deezer e Rdio.

Este fenômeno provocou uma outra mudança: os artistas passaram a fazer mais apresentações ao vivo para aumentar suas receitas. Um exemplo disso é o recente anúncio da volta da formação original do Guns N’ Roses como uma das principais atrações do Festival de Coachella, a ser realizado em abril. Especula-se que o cachê da banda por show esteja em torno de US$ 3 milhões. Desde que anunciaram sua volta, pouco antes do Natal, já existem 26 apresentações da banda agendadas neste ano apenas nos Estados Unidos.

Por sua vez, David Bowie não faz nenhum show desde julho de 2004 e continua absolutamente relevante na cena musical. Esses 12 anos de reclusão marcam exatamente o período em que a indústria fonográfica se transformou radicalmente. Obviamente que ele pode se dar a esse luxo porque desfruta do rico e denso legado que construiu ao longo das fases mais produtivas de sua carreira – os anos 1970 e 1980.

Os talentos surgidos neste século, por outro lado, são regidos pela nova dinâmica estabelecida e seguem uma outra cartilha. Mas é sempre inspirador e reconfortante saber que existem monstros sagrados do mundo pop na ativa, se renovando a despeito de todas as mudanças.

Como fã, adoraria ler a notícia de que Bowie prepara sua volta triunfal aos palcos. Ainda nutro essa esperança. Por hora, resta ouvir o novo álbum Blackstar.

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