O Carnaval da Amstel

Regina Augusto

12 Fevereiro 2016 | 09h49

Como inúmeros paulistanos, fiquei na cidade neste Carnaval e fui a um bloco de rua. O pretexto era levar meus dois filhos pequenos para conhecer essa que é a maior manifestação popular do Brasil e da qual sempre mantive certa distância crítica, mas no final quem curtiu mais a experiência foram os pais. Escolhi o tradicional Bloco dos Esfarrapados, no Bexiga, sob o sol escaldante de uma segunda-feira brilhante. Nada de super produções, apenas pessoas comuns do bairro, todas fanáticas pela escola de samba da vizinhança, a Vai Vai. Uma experiência válida e divertida.

Mas o que chamou mesmo a atenção foi a fartura de cervejas Amstel sendo vendidas pelos ambulantes e a forma organizada como o faziam. O preço era R$ 5,00 por latinha com direito a porta latas para manter o produto frio por mais tempo. Quando se está sob um sol do Saara na hora do almoço cercado por uma multidão, esse preço é mais do que justo.

Circulando um pouco pelas ruas, era possível avistar uns “clandestinos” vendendo Skol: 3 por R$ 10,00. Tinham que se esconder da fiscalização já que a única marca permitida a ser vendida na maior parte dos blocos de rua de São Paulo era a Amstel, patrocinadora oficial do Carnaval de rua da principal capital do País.

O ano escolhido para a iniciativa não poderia ter sido mais oportuno. Os 355 blocos de 2016 na cidade representaram um crescimento de 36% em relação a 2015. A Caixa Econômica Federal ladeava a Amstel como patrocinadora oficial, mas não vi nenhum tipo de ativação do banco estatal no bloco que frequentei. Só dava a cerveja da Heineken.

Nas redes sociais, circulavam fotos de caixas e caixas de Skol apreendidas pela Prefeitura de São Paulo em alguns blocos onde a fiscalização flagrou a venda irregular. E confesso que ao ver a Skol ser confinada à marca de terceira linha sendo vendida quase como material falsificado não pude deixar de pensar como uma marca que já foi um dos mais bem sucedidos cases de marketing do país ficou relegada a esta posição sofrível.

Sou da geração que foi apresentada à música eletrônica por intermédio da Skol com o seu inesquecível Skol Beats, um evento que virou marca, produto e ganhou vida própria durante muitos anos na década de 2000. Por decisões empresariais que nunca se sabe ao certo como foram tomadas, a Skol foi pouco a pouco perdendo seu protagonismo: na comunicação, nos bares, na rua, na participação de mercado.

Por sua vez, as marcas da Heineken do Brasil (além da que dá nome à companhia, fazem parte do portfolio Kaiser, Desperados, Sol Premium e Amstel, lançada há menos de um ano) estão ganhando pontos importantes não só de market share, mas sabendo ocupar espaços de forma criativa, com consistência e sem pirotecnias. A ponto de o Brasil ter destaque na divulgação do balanço financeiro global de 2015 da companhia divulgado nesta quarta 10, em Londres. A empresa informou aos acionistas que, no ano passado, o volume total de vendas no País cresceu “com um dígito alto, a despeito da desaceleração econômica e da base de comparação elevada devido à Copa do Mundo no ano anterior”.

No Rio de Janeiro, a AmBev, dona da Skol, sua principal marca no País, tem tradição de patrocinar o Carnaval de rua por meio da Antarctica, que sempre foi tratada como uma marca de combate dentro do portfólio da companhia. O aprendizado parece não ter servido para nada. Perdeu uma grande oportunidade de também trabalhar os blocos de São Paulo com sua marca líder Skol, que foi literalmente enxotada da festa da pior forma possível.

No Carnaval passado, a Skol já tinha derrapado feio na sua comunicação com alguns cartazes de teor machista que causaram bastante polêmica. No de 2016, perdeu de lavada espaço para a Amstel bem no ano da explosão do Carnaval de rua em São Paulo. É bom não esperar a trapalhada do próximo Carnaval para a marca se cuidar e tentar recuperar a cerveja derramada.