O caso José Mayer e a cultura do assédio

Regina Augusto

05 de abril de 2017 | 11h31

Ao ficar ao lado de Susllen, a Globo deu uma demonstração clara de que está alinhada aos novos tempos fazendo uso de seu poder em ditar novos hábitos, um processo que deve começar de dentro para fora

 

Em 2012, quando minha filha nasceu, não me esqueço do primeiro sentimento que me assolou ao pegá-la no colo, minutos depois de ela vir ao mundo. Em meio ao êxtase daquele momento, uma sensação de preocupação extrema rapidamente tomou conta dos meus pensamentos. Minhas sinapses fizeram um fast foward e a vi já adolescente, linda e muito vulnerável por ser mulher. Rapidamente tentei tirar aquele pensamento da cabeça e, felizmente, de fato consegui. Algo muito diferente da primeira emoção que tive dois anos e meio antes quando do nascimento do meu primeiro filho homem, que foi só alegria. Sim, nascer mulher é isso. Conviver desde os primeiros instantes da vida com ameaça de assédio, preconceito e estupro. Lembrei disso nos últimos dias ao ver a repercussão do caso José Mayer.

Sua primeira reação foi típica de alguém que não percebeu a dimensão do episódio, para dizer o mínimo. Terceirizou para o personagem canalha Tião Bezerra, da trama A Lei do Amor a responsabilidade pelas acusações feitas pela figurinista Susllen Meneguizzi Tonani. A jovem de 28 anos declarou em depoimento em primeira pessoa ao blog #AgoraÉQueSãoElas, da Folha de S. Paulo, que sofria investidas do ator que evoluíram de brincadeiras ao toque em sua genitália.

A repercussão não poderia ter sido maior, fazendo com que a Rede Globo decidisse no domingo suspender o ator de novos projetos por tempo indeterminado. Nesta terça 4, Mayer divulgou carta em que pede desculpas e muda totalmente o tom da conversa. Admite que errou e tenta justificar sua atitude por ser “fruto de uma geração que aprendeu, erradamente, que atitudes machistas, invasivas e abusivas, podem ser disfarçadas de brincadeiras ou piadas”. O comunicado muito bem escrito certamente por uma profissional de relações púbicas do sexo feminino, seguindo todos os manuais de comunicação, e a postura da Globo em apoiar a funcionária denunciante são divisores de água e algo a ser comemorado. Dão uma nova narrativa a uma situação, infelizmente, corriqueira.

Não por coincidência, no mesmo dia em que Meyer divulgou sua carta, o cantor Victor Chaves, da dupla Victor e Leo e jurado do programa The Voice Kids, foi indiciado sob suspeita de agredir a mulher grávida, em fevereiro. O sertanejo também foi afastado pela Globo.

A maior emissora do País não está sozinha neste triste histórico de machismo, assédio e violência praticado por alguns membros do seu casting masculino numa mistura explosiva de sucesso, abuso de poder e certeza de impunidade. Em 2012, a revelação de que Jimmy Savile, morto um ano antes aos 84 anos e um dos mais célebres apresentadores de TV da Grã-Bretanha fora acusado de ter abusado sexualmente de até 200 pessoas – incluindo adolescentes – durante cerca de 40 anos, chocou o Reino Unido. À frente de programas consagrados da BBC durante décadas, o caso causou uma grave crise na emissora já que houve suspeitas de que a direção da estatal encobriu as denúncias e acobertou as investigações em torno do fato.

 

Também não por coincidência nesta semana causou polêmica a entrevista da atriz Juliana Paes à Veja na qual critica os excessos do feminismo. A última pergunta da entrevista é: “Existe teste de sofá na TV?” Juliana na sua resposta se safa com muita habilidade da cilada ali colocada. Se tivesse entrevistando um ator e não uma atriz, ainda mais uma de uma beleza estonteante, duvido que o hábil repórter Marcelo Marthe iria fazer esse tipo de pergunta. Ela carrega em si a suspeita de uma prática que muitos dizem ser comum na Globo e em outras emissoras, a de que algumas mulheres para conseguirem papéis em novelas e em programas de TV têm que se submeter aos afagos sexuais de diretores, no que ficou conhecido como o teste do sofá.

Numa daquelas situações típicas de grande perda de oportunidade de ficar calado, o humorista e ator Marcelo Madureira ao comentar o caso Mayer à rádio Jovem Pan soltou a pérola “É estranho, eu sei, mas é assim. O ambiente do teatro, nos camarins, nas coxias, pode ser bem mesmo muito estranho, e até mesmo inóspito para quem não é do ramo. Vejam bem, não quero aqui justificar um comportamento impróprio do José Mayer, mas acho justo também tentar entender a coisa como um todo. A vítima, com razão, constrangida, talvez não tenha o perfil para trabalhar no ramo artístico”, afirma. Sim, para alguns homens é natural que artistas façam coisas desse tipo e perpetuem a cultura do teste do sofá.

A despeito do radicalismo e intolerância que fazem hoje o mundo ser muito mais complexo e desafiante, o caso José Mayer é emblemático por ter vindo à tona neste início de século XXI, no qual a agenda em torno de questões relacionadas à mulher está em franca transformação. E para melhor. Essa mudança, no entanto, precisa começar nas próprias mulheres. Enquanto vermos mães que mandam seus filhos ainda crianças tirar selfies com o goleiro Bruno, ou a mãe e a irmã do cantor Victor defendendo a agressão dele à sua mulher grávida, percebemos que o buraco é muito mais embaixo.

Ao ficar ao lado de Susllen, a Globo deu uma demonstração clara de que está alinhada aos novos tempos fazendo uso de seu poder em ditar novos hábitos, um processo que deve começar de dentro para fora. Homens como José Mayer, que no alto de sua fama e distorção da realidade acham que podem bolinar a genitália alheia sem maiores consequências, começam a ser desmascarados.

Sinto muito e sou solidária à Susllen, mas sua coragem servirá de exemplo a tantas outras mulheres que passam por situações semelhantes. Minha filha de 4 anos agradece e eu tenho a certeza de que ela viverá em um mundo muito mais civilizado, onde respeito e empatia serão moeda corrente.

Tudo o que sabemos sobre:

José MayerGloboTião BezerraA Lei do amor

Tendências: