O dia em que a Globo foi atropelada pela realidade

Regina Augusto

16 Setembro 2016 | 10h52

A cobertura da maior emissora do País sobre a morte do ator Domingos Montagner, de 54 anos, vítima de um trágico afogamento, nesta quinta-feira, dia 15, no Rio São Francisco, cenário da novela que protagonizava, foi tímida e burocrática. O Santo, de Velho Chico, foi encontrado morto horas depois de ter mergulhado em área de forte correnteza ao lado da sua colega e companheira na trama, Camila Pitanga.

Ao longo da tarde, enquanto estava desaparecido, as redes sociais já estavam incendiadas com o fato. Afinal, era um daqueles casos em que a vida literalmente afogou a arte. O ator havia protagonizado há pouco tempo uma cena em que desaparecia nas águas bravas do Velho Chico. Os programas vespertinos das demais emissoras abertas começaram a cobrir ao vivo o caso. A Globo, por sua vez, não mudou em nada sua programação. Mesmo após a confirmação da morte, no final do dia, nada fora do script foi feito.

No Jornal Nacional, uma reportagem sobre o caso, curta diante do imponderável da situação e do tamanho da tragédia. Afinal tratava-se de um grande ator, protagonista da novela de maior audiência da emissora e uma morte cinematográfica. O assunto principal do Jornal Nacional ontem foi o pronunciamento de Lula, criticando os procurados da Lava-Jato, que no dia anterior tinham denunciado o ex-presidente como chefe da propinocracia que assola há tempos o país. Após o JN, o capitulo de Velho Chico transcorreu normalmente, com direito inclusive a uma cena inadequada de barco no São Francisco.

Em junho de 2015, por ocasião da morte por acidente de carro do cantor sertanejo Cristiano Araújo, até então desconhecido para uma boa parcela da população (eu inclusive), a Rede Globo suspendeu a Sessão da Tarde e por mais de duas horas, transmitiu ao vivo a cobertura daquele fato. Algo inédito até então. Ontem, nada fora do padrão foi feito. Quem quisesse saber mais a respeito da morte não conseguiria nenhum tipo de informação na emissora que o abrigou e que era a “sua casa”. Era necessário correr para suas concorrentes e acompanhar o desenrolar dos fatos pelas redes sociais e sites noticiosos.

Tragédias fazem parte da vida e do jornalismo. A Rede Globo é pós-graduada nisso. Só não dá para entender o que motivou a decisão de não fazê-lo mais vivo e real, sem cair no sensacionalismo, diante de uma morte tão impactante. O precedente de Cristiano Araújo já havia sinalizado o quão forte é esse tipo de cobertura. No jornalismo, as regras para uma boa notícia são ineditismo, relevância e grandeza. Todos fatores que a morte de Montagner reúne em grau superlativo. Caberia um pouco de flexibilidade na cobertura, um pouco mais de emoção, que transborda em lugares onde ela nem sempre é pertinente, mas nesse caso faltou. Não houve sequer um vídeo de homenagem ao ator nos intervalos comerciais, uma saída à francesa, mas que responderia um pouco aos anseios da audiência.

Eu não assisto a novela Velho Chico, mas não consegui ficar incólume à movimentação das pessoas que trabalham comigo durante a tarde inteira. E acabei também sendo abduzida pelo fato. Afinal, se tratava de um ator de primeira grandeza e de uma morte que nenhum roteirista jamais iria escrever. Estou envolvida por essa história até agora enquanto escrevo esse texto. Tudo isso não foi capaz de abalar a direção de jornalismo da Globo. Nada saiu do padrão. Uma oportunidade desperdiçada e que aponta como a maior emissora do país, em alguns momentos, está em total descompasso com sua audiência.