O primeiro-cavalheiro Bill Clinton e o olhar complacente da mídia

Regina Augusto

29 Julho 2016 | 11h13

O escrutínio que a mídia norte-americana e, consequentemente, global faz sobre detalhes fúteis das primeiras damas do seu país, em especial, visual e figurino, é histórico. Michelle Obama com sua arrebatadora força da natureza consegue chamar a atenção por seu brilho e inteligência, mudando um pouco esse paradigma. Hillary Clinton vai na mesma linha, com bem menos carisma que Michelle, mas com um currículo muito consistente (e polêmico), em parte amealhado depois que deixou a condição de primeira-dama. O que falar agora do candidato a primeiro-cavalheiro Bill Clinton? Qual será o tom e espaço que ele vai ganhar da mídia no caso de vitória de sua mulher ao cargo de presidente dos Estados Unidos?

Sua participação na Convenção Nacional Democrata, essa semana, deixou claro que ele será um coadjuvante diferente. Será muito mais ativo e influente no papel que historicamente é bem figurativo e insosso. O que chama a atenção é o tratamento diferenciado que boa parte da mídia lhe reserva, uma espécie de sexismo invertido.

Editorial do New York Times levantou muito bem essa questão: “Nenhuma mulher com o histórico de traições de Bill Clinton seria aceita como primeira-dama. Imagine o frenesi se Melania Trump tivesse uma infidelidade documentada, ou se Michelle e Laura Bush traíssem seus maridos na Casa Branca”.

Não há como negar o duplo ineditismo. Além de ser o primeiro homem a ocupar uma posição que só coube até então a mulheres, não se trata de um cidadão qualquer. É um ex-presidente dos Estados Unidos. Como role model, a expressão em inglês que significa a representação de modelos que seguimos ao longo de nossa trajetória de vida, o casal Bill e Hillary pode não ter o carisma e a presença de espírito de Obama e Michelle, mas são rodeados de fatos fortes e midiáticos também.

Será um desafio e tanto para a mídia cobrir Bill Clinton nessa posição no caso da vitória de Hillary. Em um mundo onde a polarização e a discussão sobre gêneros estão em alta e despertam discussões acaloradas, é um bom momento também para se refletir sobre os papéis reservados a homens e mulheres na sociedade atual.