Os chefs, o sucesso e o poder de influência

Regina Augusto

01 de outubro de 2015 | 08h04

Um dos nomes mais importantes da publicidade global atualmente, Rei Inamoto, ex-chefe global de criação da AKQA, uma agência que teve origem no digital e que hoje está entre as principais do mundo em termos de inovação, surpreendeu o mercado há alguns dias. Após uma bem-sucedida carreira de 11 anos na empresa, ele anunciou sua saída. No início desta semana, o profissional deu mais detalhes. Irá abrir um estúdio de ‘business invention’ ainda sem nome, com sede em Nova York, em parceria com Rem Reynolds, diretor geral do escritório local da AKQA.

A notícia em si não é uma grande novidade já que muitos executivos que ganham projeção no mercado publicitário – no Brasil e no mundo – têm nos projetos autorais um caminho razoavelmente comum a ser percorrido. O que causou surpresa, no entanto, foi a inspiração do novo negócio de Inamoto. Em entrevista ao AdAge, a maior publicação especializada em publicidade dos Estados Unidos, na segunda-feira 28, ele declarou que sua grande referência no novo negócio é o restaurante El Bulli, do aclamado chef espanhol Ferran Adrià, que fecha seis meses por ano para se concentrar na criação de novos pratos e técnicas e quando reabre apresenta as novidades do cardápio como iguarias frescas e originais. A nova empresa de Inamoto quer lançar mão desse espírito de invenção constante, mas nas áreas de design e tecnologia e sem a necessidade de fechar por seis meses.

Interessante reportagem do jornal inglês The Guardian também publicada na segunda 28, divulgou que o prestigiado chef inglês Heston Blumenthal (o segundo no ranking mundial, abaixo apenas de Adrià, ambos conhecidos pela chamada gastronomia molecular), após passar seis meses na Austrália reabriria essa semana seu famoso restaurante, o Fat Duck, em Bray, charmoso vilarejo cerca de uma hora de carro a oeste de Londres. Até aí nada de original. O detalhe que chama a atenção, no entanto, é o preço por pessoa que se dispõe a passar por uma experiência que chega durar quatro horas: 255 libras esterlinas mais 12,5% de impostos, o que dá 286,87 libras. Algo em torno de 1.718 reais, levando-se em conta que a cotação da libra esterlina está beirado os 6 reais.

A reportagem é bem crítica ao preço exorbitante e com a típica ironia inglesa sugere algumas outras fórmulas que podem garantir igualmente uma ótima receita financeira a Blumenthal, mas de forma a tornar a experiência de comer no Fat Duck algo um pouco mais democrático e menos elitista. Uma delas seria criar uma loteria entre as 30 mil ligações diárias para reservas (isso mesmo 30 mil pessoas!) que o restaurante costuma receber. Se apenas 10% dessa audiência comprasse um bilhete de 10 libras para serem sorteados, o lucro seria de 7,8 milhões de libras por ano.

Brincadeiras à parte, essa exorbitância do preço do Fat Duck é proporcional ao grau de influência que Blumenthal adquiriu na Inglaterra. Nos últimos quatro anos, tive a oportunidade de assistir em duas ocasiões, em Londres, palestras com ele em eventos de empresas ligadas ao mercado publicitário. Além de ser um ótimo chef, ele introduziu na sua culinária e na própria narrativa uma técnica para lá de manjada no marketing: o storytelling.

Adrià e Blumenthal são os expoentes máximos de uma categoria profissional – os chefs – que hoje desponta como uma das mais importantes do universo criativo. A ponto de inspirar empresas como a que o publicitário Rei Inamoto acaba de lançar nos Estados Unidos.

Aí está um fenômeno midiático que gerou uma mudança comportamental relevante: a glamorização dos chefs. O poder e a penetração da televisão alçaram os cozinheiros – no Brasil e no mundo – ao status de celebridades. Uma zapeada nos canais abertos e fechados da TV comprova esse fenômeno com atrações das mais diversas. O sucesso da última edição de Masterchef Brasil, cuja final foi exibida há duas semanas pela Band, é um bom termômetro desse processo.

Ferran Adrià nunca teve programa de TV. Heston Blumenthal apresentou por algum tempo na Inglaterra uma série onde explicava o processo altamente elaborado com que prepara seus pratos. Ambos são os expoentes máximos e extremamente sofisticados de uma categoria que só aumenta seu poder de influência. Na ponta extrema, essa atração explica, por exemplo, a razão pela qual cresceu vertiginosamente a oferta e a demanda por cursos e faculdades de gastronomia aqui no Brasil.

Uma mudança cultural interessante e que diz muito sobre esses tempos de pequenas indulgências a ponto de transformar a própria arquitetura das casas. Em outras épocas, as residências tinham a sala de estar como seu centro; hoje, elas giram em torno da cozinha, de preferência aberta. A experiência de comer – e especialmente, de cozinhar – deixou de ser algo discreto e circunscrito a pequenos espaços. Veio para o centro das casas (das conversas e das decisões) e precisa ser vista por todos.