Os príncipes ingleses e a depressão

Os príncipes ingleses e a depressão

Regina Augusto

27 de abril de 2017 | 12h36

Herdeiros do trono britânico quebram tabu ao falar abertamente do tema na campanha “Heads Together” que contou também com a participação de Lady Gaga

 

Há algumas semanas almocei com uma amiga que hoje reside no Rio de Janeiro e, por conta da correria do dia a dia, fazia tempo que não sentávamos para bater papo e nos atualizar sobre a vida uma da outra. Fiquei triste e surpresa quando ela me contou sobre os problemas enfrentados há quase dois anos por conta de uma forte depressão que a acometeu e que agora dá sinais de estar chegando ao fim. Como colunista de um grande jornal e em tempos de Facebook, no qual sempre editamos nossos posts apenas com os melhores momentos da nossa vida, não sabia de seu problema. Fiquei chocada e me senti um pouco culpada por não ter dado algum tipo de apoio quando a doença estava no auge. Desde como foi diagnosticada – com uma crise de pânico tratada com pouco caso pela médica que a socorreu no Pronto Socorro, dizendo que não tinha nada fisicamente e que deveria procurar um psiquiatra – ao preconceito e falta de compreensão da nossa sociedade em relação a esse que com certeza será o mal do século, as histórias em torno da depressão infelizmente ainda são carregadas de tabu. Afinal de contas, vivemos na era do importante é ser feliz e bem-sucedida e não há espaço para tristeza.

Neste contexto, é louvável a campanha “Heads Together”, lançada no ano passado no Reino Unido e que na última semana ganhou um novo e importante capítulo com a divulgação de um vídeo no qual os príncipes William e Harry falam abertamente do que sofreram após a trágica morte da mãe, em 1997, em acidente automobilístico, quando ambos tinham, respectivamente, 12 e 15 anos.

No vídeo, gravado em Westminster e que conta com a participação da duquesa de Cambrigde, Harry admite que durante muito tempo ignorou sua própria angústia emocional antes de eventualmente procurar um aconselhamento. William, por sua vez, chamou a atenção das estatísticas em torno das altas taxas de suicídio masculino. Uma forma nobre, literalmente, de tratar de um assunto de saúde pública fazendo um excelente uso do papel de celebridade que ambos têm.

 

A campanha Heads Together foi lançada a partir de uma iniciativa de Kate Middleton, agora duquesa de Cambridge, após passar por período de angústias decorrentes do nascimento de seu primeiro filho George e visa combater o estigma que envolve as questões em torno dos problemas de saúde mental. A #Oktosay encoraja as pessoas a falarem abertamente sobre suas dificuldades como forma de amenizar o sofrimento e evitar o agravamento de situações comprovadamente potencializadas pelo medo e preconceito. Também foi postado no site da campanha o vídeo com o papo via Facetime entre o Príncipe William e a cantora Lady Gaga, no qual ela conta como foi difícil, em algumas ocasiões, subir ao palco se sentido triste e devastada emocionalmente. “Nós precisamos deixar nossa geração e as outras gerações saberem que, se você não está se sentindo bem, não está sozinha e as pessoas que você pensa que nunca teriam um problema, na verdade, têm”.

 

Uma valiosa contribuição de pessoas públicas em torno de um tema delicado. No caso dos príncipes, a família real não pode se envolver em questões partidárias. O que demonstra que essas intervenções em torno da saúde mental estão além da disputa política. Quebrar o estigma que envolve questões de saúde mental certamente não é algo que alguém queira identificar como um tema da agenda da esquerda ou da direita.

Em tempos de ameaças que não se sabe se são reais ou não como o jogo Baleia Azul e da polêmica série “13 Reasons Why”, a iniciativa joga luz de forma lúcida e equilibrada a algo que normalmente fica nas sombras e com o qual teremos de aprender a conviver cada vez mais.

Tendências: