Pokémon Go: o que a teimosia da Nintendo ensina para as marcas

Regina Augusto

15 Julho 2016 | 14h14

Para quem tem mais de 40 anos como eu, a marca Nintendo remete àqueles lugares da memória que acionam sentimentos como afeto, conforto e segurança. Dona de games poderosos que nasceram no século passado como Super Mario Bros e Zelda, a companhia japonesa conseguiu ingressar no ano 2000 ainda muito forte. O lançamento do Wii, no começo do novo milênio, catapultou-a ao sucesso novamente. Poucos anos depois, no entanto, perdeu espaço. Desde 2010, amargava uma posição coadjuvante no mercado global de games ao não perceber uma mudança fundamental no hábito de consumo dos seus usuários: os consoles foram substituídos pelos smartphones.

Jogos como Angry Birds, Candy Crush e Temple Run mostraram que a mobilidade e a simplicidade são a grande chave para conquistar os gamers da geração Z. Enquanto isso, na primeira metade dessa década, a Nintendo viu seu espaço no bilionário mercado global de games diminuir. Sabe-se que a empresa japonesa tinha na sua prateleira de produtos a serem testados e lançados uma série de projetos que contemplavam a mobilidade. No entanto, por alguma razão que estranhamente acomete o mundo corporativo, ficou sentada em cima desses planos durante anos.

O tempo foi passando e as oportunidades também. Até que, como um grande milagre, o lançamento do Pokémon Go, há poucos dias, e seu sucesso arrebatador coloca novamente a Nintendo nas manchetes da impressa mundial. Com apenas uma semana de lançamento, o jogo está próximo de bater apps como Tinder, Snapchat e Google Maps. Presente em apenas cinco países até o momento – Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, Nova Zelândia e Austrália, o Pokémon Go já tem mais de 11 milhões de usuários apenas no mercado norte-americano. A cifra o coloca à frente do Twitter, que tem 6 milhões de usuários diários por lá, de acordo com a consultoria SurveyMonkey Intelligence.

Para quem esteve em Marte nos últimos dias, o jogo Pokémon Go foi lançado nos primeiros dias de mês de julho, utiliza sistema de localização por satélite dos smartphones e suas câmeras para encontrar os monstros em lugares do mundo real. O título mistura elementos característicos dos famosos monstrinhos com realidade aumentada, permitindo com que a câmera do aparelho capture os pokémons, que, uma vez, presos, precisam ser treinados para que consigam evoluir.

Até as polêmicas em torno do jogo (ao fazer as pessoas andarem pelas nas ruas em busca dos personagens, muitas acabam se envolvendo em situações de risco) estão ajudando o boca a boca visceral que tem feito com que o assunto ganhe força e se espalhe literalmente como vírus. O McDonald´s entrou nessa conversa com a iminência de ser a primeira marca a fazer parte do jogo.

Do ponto de vista financeiro, em apenas uma semana, as ações da Nintendo registraram até a quinta-feira 14, alta de mais de 50%. Em valor de mercado, o aumento foi de 24,5%, maior índice alcançado pela empresa desde 1983, fazendo-a saltar US$ 7,5 bilhões. Vale lembrar que o Pokémon Go foi criado por uma empresa chamada Niantic, criada dentro do Google e que há um ano fez seu spinoff (se tornou uma operação independente), em conjunto com a Pokémon Company. Ambas possuem participação da Nintendo. Mesmo indiretamente, já que os lucros não são imediatos para a companhia japonesa pois o jogo é gratuito e ela não é a única investidora, o fato de estar associada a esse sucesso já é suficiente para mudar a sua história.

Não se sabe ao certo onde este fenômeno vai parar. Se for apenas uma febre, o que não parece ser, já mostrou que o atual ambiente tecnológico, no qual a indústria de games é parte importante, é volátil e exponencial. A ponto de fazer uma empresa em franca decadência se recuperar em poucos dias e conquistar uma posição que há tempos nem sonhava em voltar a ocupar. A combinação de personagens fortes e já presentes no imaginário dos gamers com o uso eficiente de uma tecnologia que até então não tinha dito a que veio mostrou ser bombástica reverberando no comportamento de seus usuários e no mundo dos negócios.

Fico imaginando quantas marcas não ficam esperando chegar sua hora e às vezes possuem em seus próprios domínios produtos, serviços e soluções que podem literalmente mudar suas histórias, mas perdem o timing. Neste mundo de makers esperar o momento certo ou dar uma cochilada fora da hora pode custar muito caro. A Nintendo está mostrando ao mundo que acordou. Bom para ela e para os milhões de fãs do Pokémon espalhados pelo planeta.