Rio 2016 e os sentimentos contraditórios que desperta

Rio 2016 e os sentimentos contraditórios que desperta

Regina Augusto

21 Julho 2016 | 11h18

A primeira página do Estado de São Paulo desta quinta 21 é o símbolo maior das contradições e adversidades que a Rio 2016 enfrenta a apenas duas semanas do seu início. A sobrecapa do jornal traz o anúncio da organização dos Jogos Olímpicos chamando para a abertura de um lote de 100.000 ingressos que serão liberados hoje – quase um apelo! A manchete do diário, no entanto, tem a lamentável notícia: “Estado Islâmico dá dicas na web de como atacar no Rio”. Contexto pior para anunciar a venda dos ingressos não poderia haver. Na realidade, esses dois fatos juntos e misturados retratam a complexidade e as muitas variáveis de humor e sentimento que envolvem as Olímpiadas.

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Estava no Rio em outubro de 2009 quando a cidade foi anunciada como sede dos Jogos de 2016. Foi eletrizante, uma sensação boa e inédita de nos acharmos a bola da vez. Me lembro que alguns meses antes cheguei a questionar se de fato fazia sentido aquela candidatura, pois há apenas dois anos já havíamos sido escolhidos como sede da Copa do Mundo de 2014. As prioridades do país deveriam ser outras, nossas mazelas continuavam imensas com os eternos problemas básicos de saúde, educação, segurança. Conversei, na época, com alguns especialistas, com gente envolvida na indústria do esporte e todos pareciam abduzidos pela aura de protagonismo que tomava conta de todos no País. Acabei sendo contaminada por aquela sensação boa que se propagou como droga pelos anos seguintes. E naquele longínquo 2 de outubro, acabei até derramando algumas lágrimas de emoção ao ver o nome ‘Rio de Janeiro 2016’ na placa levantada pelo mestre de cerimônias do evento em Copenhagen.

As manifestações de junho de 2013 foram o primeiro grande aviso de que as coisas não sairiam como havíamos previsto. A forma surpreendente como o movimento ocorreu e rapidamente se alastrou, especialmente entre os mais jovens, parecia ter como alvo apenas a Copa do Mundo. Na verdade, era um sinal maior de que a sociedade já não aceitava mais engolir goela abaixo uma série de desmandos. Não éramos tão passivos e amigáveis assim. Nossa identidade estava em jogo. Sob muito protesto veio a Copa do Mundo. A despeito dos inacreditáveis 7 x 1, foi um belo espetáculo cujo legado foi nulo.

Veio a ressaca. A partir de então adentramos em mares revoltos nunca antes navegados. Os dois anos entre a Copa do Mundo e a Olímpiada do Rio formam um dos períodos mais sombrios da nossa história recente com uma crise institucional, política e econômica de dimensões históricas. A operação Lava-Jato é a grande protagonista deste caldo de cultura e todo o séquito de presos ilustres em uma cadeia de Curitiba forma os antagonistas e coadjuvantes desta narrativa que ainda está a se desenrolar. Para completar este enredo sórdido, um impeachment a três meses do maior evento esportivo do planeta ocorreu e dois presidentes – uma impedida e outro interino – estarão na abertura dos Jogos.

Nesta semana, uma pesquisa do Instituto Datafolha revelou que metade dos brasileiros não concorda com a realização dos jogos olímpicos Rio 2016 e 63% acreditam que a competição trará mais prejuízos que benefícios. O mesmo levantamento realizado em 2013 trazia esse percentual na casa dos 38%. Os números surpreenderam comentaristas que consideraram os dados pessimistas demais.

Nada foi capaz de mudar o humor das pessoas. Não há clima de Olimpíada nas ruas, no varejo, nem promoções. Há apenas algumas semanas, a TV foi tomada por campanhas publicitárias mais focadas no evento. Nem mesmo a tocha olímpica está conseguindo arrebatar multidões e ainda por cima tem se tornado palco de deslizes feios e primários. A lamentável queda da empresária Luiza Trajano, que foi alvo de brincadeiras descabidas dos espíritos de porco das redes sociais, poderia ter sido evitada se a organização do evento tivesse o mínimo de bom senso de colocar uma senhora de 60 e poucos anos para caminhar com a tocha ao invés de fazê-la correr a ponto de perder o equilíbrio e passar por um constrangimento desnecessário.

O número surpreendente de ingressos encalhados está fazendo com que a Rio 2016 faça merchandising em novela da Globo, sobrecapa nos maiores jornais do País, enfim grite em alto e bom som: “comprem ingressos para as Olimpíadas pelo amor de Deus”. Já escrevi aqui nesse espaço que fui sorteada em junho de 2015 com meus ingressos para os jogos. E aguardo ansiosamente pelo evento ao qual irei com minha família. Sou, no entanto, minoria. Os Jogos de fato não pegaram.

A grande expectativa é que assim que eles tiverem início, esse quadro de desânimo se reverta, a exemplo do ocorrido na Copa do Mundo. O Brasil, a partir do dia 21 de agosto, será definitivamente um outro país. Viveremos a ressaca de (quiçá) termos realizado um evento incrível, o julgamento do impeachment já estará definido e a sensação geral será a de que o pior já passou. Nesses sete anos, fomos da euforia à depressão rapidamente como cidadãos, como nação e como economia. Nossas fraturas e fragilidades ficaram expostas para o mundo. Que venham dias menos ciclotímicos, mais amenos e um pouco mais previsíveis.