Um mundo mais dividido

Regina Augusto

24 Junho 2016 | 10h22

A notícia chegou no final da noite do dia do meu aniversário. O referendo do Reino Unido ocorrido ontem tinha dado vitória ao Brexit. Demorei para dormir pensando na real dimensão daquela notícia. Meu marido, inglês e ferrenho apoiador da permanência, estava inconsolável. Seria uma noite difícil. Só ao acordar hoje cedo e olhar a timeline do meu Facebook e alguns feeds de veículos internacionais pude ver o tamanho do estrago. A Inglaterra, que já nos deu coisas maravilhosas e inspiradoras, joga na cara de todos nós uma realidade cruel e horrorosa: a intolerância está triunfando.

Consumidos pela gangorra política que vivemos aqui no Brasil com as ocorrências nada previsíveis dos governos – o interino e o interrompido – com prisões atrás de prisões de figuras outrora proeminentes, acabamos não olhando direito o que está ocorrendo no resto do mundo. A saída do Reino Unido da União Europeia, além de enfraquecer todas as partes envolvidas, dá manancial ao insano e perigoso Donald Trump na corrida eleitoral à presidência dos Estados Unidos.

A decisão enfraquece o próprio Reino Unido, desestabiliza os demais países da União Europeia e do ponto de vista econômico tem efeitos devastadores e de longo prazo. O próprio referendo ocorrido dois anos atrás na Escócia, que decidiu continuar parte do Reino Unido por causa de sua integração à comunidade europeia, está agora em xeque porque seu principal argumento de sustentação não existe mais. Já se fala em convocação de nova votação para breve por lá. O premiê inglês, David Cameron, que inventou o referendo e defendia a permanência, se enfraqueceu e anunciou sua renuncia nesta manhã. Saindo do poder, abre espaço para políticos que defendem o separatismo.

Na era da interdependência e da integração, um continente que tem sua história marcada por conflitos étnicos, invasões de territórios, ondas migratórias em massa e, mais recentemente, ataques terroristas se vê agora diante de um retrocesso histórico. A ascensão da extrema direita só vai insuflar mais ódio e mais preconceito em um país com alta presença de imigrantes. Os times da bilionária Premier League e seu sucesso mundo afora são um reflexo desse Reino Unido que agora decidiu dar um passo atrás, se fechar e jogar mais lenha em uma fogueira que vai incendiar outros países, não só do bloco europeu.

Durante os últimos tempos tenho colocado em perspectiva, como muitos brasileiros, sair do país. Casada com um inglês, o caminho mais óbvio seria nos mudarmos para a Inglaterra. Meu marido, ao contrário de mim, quer ficar aqui no Brasil. Ama o país que lhe deu uma família e o acolheu tão bem. Nunca entendi ao certo essa relutância dele em voltar para sua terra natal. O referendo de ontem me deu algumas pistas. Como antropólogo, ele sempre diz que a despeito de todos os nossos problemas, as pessoas no Brasil são o grande ativo do País. Hoje, essa diferença ficou bem mais nítida para mim.

Temo pelos meus filhos, temo pelas gerações futuras. Tempos ainda mais duros virão.