Um país que se define pela palavra “gostosa”

Um país que se define pela palavra “gostosa”

Regina Augusto

30 Junho 2016 | 12h08

Responda rápido: se você tivesse que viajar dentro de 35 dias para um país que você nunca visitou antes para assistir ao maior evento esportivo do planeta, o qual fala um idioma que você não conhece e poucos nativos sabem inglês, quais seriam as dez palavras básicas que iria aprender para poder ao menos se virar por lá? Qualquer pessoa razoavelmente bem informada iria aprender palavras elementares para poder fazer pedidos em restaurantes, hotel, pegar um táxi, agradecer e cumprimentar as pessoas. Mas na exposição do Museu Olímpico de Lausanne, na Suíça, a palavra “gostosa” é um dos dez verbetes apresentados aos turistas que estejam interessados em conhecer o Brasil e aprender o ‘carioquês’ durante a Rio 2016.

A ideia da exposição é apresentar um pouco da cultura brasileira aos estrangeiros mostrando música, sons, arte, culturas regionais e até mesmo o vocabulário usado no Rio de Janeiro. Numa das instalações, o visitante entra em contato com as palavras mais usadas na cidade que receberá o evento em agosto e no meio das dez selecionadas está lá a definição de “gostosa”: deliciosa, serve para qualificar a beleza feminina ou masculina. No seu uso masculino, gostoso. O equipamento permite ainda que o estrangeiro grave sua pronúncia da palavra escolhida e receba uma pontuação por isso.

Gostosa_MuseuSuica

Afinal de contas, a imagem das praias cariocas que tanto formam o imaginário do Brasil no exterior é cheia de “gostosas” de fio dental. O Carnaval, um dos maiores espetáculos populares do mundo e do qual o Rio é o principal representante, também tem como símbolo mais celebrado o das mulheres lindas com pouca ou quase nenhuma roupa. Todas gostosas. Nada mais natural então que essa seja uma palavra importante para se aprender por parte de quem está chegando aqui pela primeira vez. Se queremos manter a lógica perversa e machista que explora o turismo sexual na costa brasileira há décadas, faz todo sentido.

No entanto, a curadoria do Museu de Olímpico de Lausanne, que começou em fevereiro e vai até setembro e só agora tornou-se pública porque alguém percebeu o disparate da escolha de alguns termos (“bundão” também faz parte do léxico), pecou. Na melhor das hipóteses, pelo desconhecimento em reproduzir um estereótipo e em estimular o turismo sexual. O mesmo COI que ainda não se pronunciou sobre esse assunto apoiou o lançamento de uma campanha no ano passado por parte do Ministério do Turismo contra a exploração sexual de crianças e adolescentes durante os Jogos Olímpicos. Na semana passada, até o Vaticano entrou no movimento com uma campanha para alertar aos turistas que irão para o Rio durante a Olimpíada para que não paguem por serviços de meninas que podem estar envolvidas no tráfico.

Vivemos tempos duros, desafiantes, de promessas e expectativas não cumpridas e a Rio 2016 simboliza esse estado de coisas que tem no fracasso como nação seu pilar mais profundo. Por outro lado, pelo apelo universal que o esporte tem de união e superação somado a algumas características atávicas da formação sócio cultural do Brasil como a criatividade e a facilidade em lidar com situações adversas, os Jogos Olímpicos serviriam como uma grande oportunidade de dar o nosso recado ao mundo.

Me julgo uma otimista e sempre acho que há um lado bom nas coisas, mesmo nas piores. Ainda tenho (poucas, é verdade!) esperanças de que a Rio 2016 será uma experiência única e bela. No entanto, fico especialmente frustrada – como mulher, como cidadã, como mãe e como profissional de comunicação – ao ver como jogamos no lixo uma grande e inédita oportunidade de mostrar ao mundo que estamos evoluindo, que somos um país muito além do estereótipo ‘bunda, samba e Carnaval’.

Já está em curso alguns movimentos e manifestações de indignação por parte da sociedade que mostram que esse caminho e essa imagem precisa mudar. Espero que minha filha de três anos possa ver esse tipo de transformação e viver em um mundo onde as pessoas vão olhar para as mulheres brasileiras e não avaliá-las e classificá-las apenas pelos seus atributos físicos.