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Adiar para janeiro as compras de itens de maior valor pode ser bom negócio

Com Natal fraco e a perspectiva de recessão em 2016, a tendência é que os descontos sejam mais altos do que no ano passado

Márcia De Chiara

31 de dezembro de 2015 | 05h00

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Janeiro virou um mês forte para o comércio nos últimos anos por causa das liquidações. Em 2016, por conta do Natal fraco, as liquidações da virada de ano ganham mais força e o consumidor, que tem dinheiro no bolso, pode tirar proveito da situação conseguindo bons descontos. Com a perspectiva de mais um ano de recessão, tanto lojistas como fabricantes não querem começar 2016 com estoques altos e vão fazer de tudo para facilitar a venda.

Apesar da situação ser favorável para o consumidor, os especialistas recomendam cautela na hora de comprar. “Estamos na era do consumo sustentável: o consumidor não deve comprar sem necessidade”, alerta a advogada do Instituto de Defesa do Consumidor (Idec), Claudia Almeida.

Ela lembra também que no início de ano normalmente as despesas aumentam por causa dos impostos cobrados (IPVA e IPTU) e de gastos com matrícula e material escolar. Em 2016, o aperto no orçamento em janeiro promete ser maior por causa da atividade fraca e da inflação de dois dígitos, que deve balizar os reajustes de várias despesas ordinárias de início de ano.

“O importante é planejar a compra, definir o que se quer. A compra por impulso é sempre um problema”, afirma a assessora técnica da Fundação Procon de São Paulo (Procon-SP), Fátima Lemos.

Neste caso, Claudia, do Idec, recomenda que o consumidor faça uma pesquisa prévia de preço para ter algum parâmetro. “A maior pegadinha nas liquidações é a maquiagem de preço: o preço sobe para depois descer”, lembra. Mas ela pondera que há casos óbvios, nos quais a pesquisa de preço não é necessária para saber se o produto está em oferta.
Fátima, do Procon-SP, faz coro com a advogada do Idec, mas enfatiza que normalmente as liquidações são “relâmpago” e o tempo para pesquisar é curto. Neste caso, mesmo assim, ela ressalta que a pesquisa rápida, dando uma passeada em lojas concorrentes, consulta a folhetos e à internet, é necessária para não ser enganado.

A regra número um é sempre desconfiar do desconto, especialmente se o porcentual for muito elevado e o produto estiver com preço bem abaixo da média da concorrência. A cautela ganha relevância especialmente se a loja é desconhecida e se a compra for online. “No comércio eletrônico primeiro você paga pelo produto e depois recebe”, alerta a assessora do Procon-SP.

Armadilha. Outro ponto-chave para se dar bem nas liquidações de janeiro é prestar atenção na forma de pagamento. Claudia recomenda que a compra seja feita à vista. “Temos um grande problema de superendividamento. As pessoas se empolgam e acabam comprando mais do que podem.”

Mas se o parcelamento for inevitável para poder encaixar a compra no orçamento, ela recomenda que o prazo seja o mais curto possível, sem acréscimo. Um ponto que o consumidor deve prestar atenção se optar pelo parcelamento do produto em liquidação é o preço de partida do item com desconto. Há casos em que o parcelamento tem acréscimo e o desconto oferecido acaba sendo anulado pela incidência de juros. “Muitas vezes comprar parcelado o produto em liquidação não faz sentido”, alerta Fátima.

Também o consumidor deve tomar cuidado se optar pelo pagamento no cartão de crédito à vista. Os especialistas recomendam que se evite o pagamento mínimo da fatura. “Se consumidor pagar o mínimo, ele cai no crédito rotativo, com encargos de mais de 500% ao ano. Que lugar do mundo tem uma taxa dessas”, questiona Claudia.

Não é porque o produto foi comprado em liquidação que o consumidor não pode reclamar se houver problemas na mercadoria. Segundo a assessora técnica do Procon-SP, o consumidor tem todos os direitos assegurados pelo Código de Defesa do Consumidor (CDC), inclusive a obrigatoriedade de troca do item em caso de defeito. Ela lembra que garantia e manual devem acompanhar os eletrônicos.


Produto recondicionado. Quando Marco Aurélio Martins Pulcini ligou para o 0800 do fabricante do computador que ele tinha comprado numa megaliquidação no início deste ano e deu o número do equipamento para fazer o desbloqueio, ele se assustou. “Fui cumprimentado com outro nome, que era o nome do comprador anterior do computador”, conta o biomédico.

Atraído por um desconto de cerca de R$ 400, Pulcini decidiu comprar o computador num liquidação de início de ano, daquelas que as lojas fazem para desovar estoques. Na época, lembra, ele e a esposa, tinham conversado com vendedor que disse que o produto era de mostruário, porém novo. “Fizemos a vistoria no equipamento e não constatamos nada que o desabonasse.”

Mas, na hora do desbloqueio, descobriu que o computador tinha sido comprado oito meses antes por outra pessoa, que teve problemas com a placa de vídeo do equipamento. A troca do dispositivo foi feita e, segundo dedução de Pulcini, o antigo comprador não teria ficado satisfeito com o conserto e devolveu o produto. Resultado: o computador foi parar na liquidação.

“O meu problema é que, quando fiz a compra na liquidação, o vendedor não disse que se tratava de um produto recondicionado. Essa informação tinha que constar na nota fiscal”, diz Pulcini.

Inconformado com a situação, o biomédico procurou a loja, que propôs um crédito no valor da compra para que ele adquirisse outro equipamento. “Eles nunca propuseram a devolução do dinheiro.”

Como não havia produto equivalente na loja na época, o tempo foi passando. Seis meses depois, o dólar disparou e o preço do computador subiu. Com isso, o biomédico não conseguia comprar um equipamento equivalente pela mesma quantia. Daí ele resolveu começar a usar o produto que até hoje não deu problema. Escaldado com o episódio, Pulcini desde então passou a evitar a compra em liquidação.

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