Estoque alto nas lojas ajuda a obter desconto na compra de bens duráveis
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Estoque alto nas lojas ajuda a obter desconto na compra de bens duráveis

Número recorde de varejistas estocados este mês, segundo a Confederação Nacional do Comércio, favorece o consumidor nas negociações

Márcia De Chiara

27 de agosto de 2015 | 05h00

varejo

Os estoques de geladeiras, fogões, TVs, móveis e até de carro zero-quilômetro voltaram a preocupar os lojistas. Neste mês, mais de um terço dos varejistas brasileiros (35,2%) está com volume de produtos acima do desejado nos armazéns, revela pesquisa da Confederação Nacional do Comércio (CNC). É o maior resultado em quase quatro anos e meio, quando o levantamento foi iniciado.

O peso dos estoques acumulados por causa da queda superior a 10% nas vendas de bens duráveis no primeiro semestre é ruim para as lojas, mas pode ser favorável ao consumidor, especialmente para quem tem condições de pagar à vista e fugir dos juros altos.

“O varejo está nas cordas e hoje é um bom momento para comprar bens duráveis”, diz o economista da CNC, Fabio Bentes. A afirmação se contrapõe ao resultado deste mês da pesquisa, também da CNC, que mostra que sete em cada dez brasileiros não pretendem se arriscar em levar para casa hoje um bem durável por causa dos juros altos do crediário e da insegurança em relação ao emprego.

Na avaliação de Bentes, o momento é favorável à compra porque os preços da maioria desses itens estão subindo abaixo da inflação. Nos últimos 12 meses até agosto, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA-15), que é uma prévia da inflação oficial, subiu 9,6% e os bens duráveis tiveram alta de 3,1%, em média. “É um terço da variação do IPCA-15”, diz.

O levantamento feito pelo economista mostra também que dos 27 produtos que compõem a cesta de bens duráveis no IPCA-15, 21 registraram variação abaixo da inflação nos últimos 12 meses. No mesmo período de 2014, o número de itens cujos preços perdiam para a inflação acumulada em 12 meses até agosto era bem menor: 13.

O economista observa que, neste ano, apenas um item, o colchão com alta de 11,2% no preço – acumulada em 12 meses até agosto -, teve variação superior à inflação do período. Em 2014, nove itens estavam nessa condição.

Deflação. Além de a maioria dos preços dos bens duráveis que compõem o IPCA-15 estar perdendo feio para a inflação, o estudo da CNC mostra que cinco itens registraram deflação no período: celular, máquina fotográfica, televisão, automóvel usado e microcomputador.

Para José Domingos Alves, supervisor-geral da Lojas Cem, rede especializada em móveis e eletroeletrônicos, os preços desses itens não baixaram. “Eles ficaram praticamente estáveis”, afirma. Ele diz, no entanto, que a renovação tecnológica muito rápida que ocorre em produtos, como TVs, celulares e computadores, força os preços para baixo. A rede varejista acumula neste ano até agosto queda de 6% nas vendas em relação a igual período de 2014. “É o pior desempenho em seis anos.”

Com estoques altos, as lojas adiam as compras da indústria, que também registra queda nas vendas. Os fabricantes de eletroeletrônicos encerraram o primeiro semestre com um recuo de 17% na quantidade comercializada de fogões, 10% em refrigeradores, 37% em TVs e 1,0% em lavadoras, segundo a Eletros, que reúne as indústrias do setor.

Lourival Kiçula, presidente da Eletros, diz que a perspectiva é que a venda de TVs, afetada pela base forte de comparação do ano passado por causa da Copa, melhore. Mas para os outros produtos, se o desempenho ficar igual ao do ano passado será um bom resultado.

Câmbio. Mesmo com o mercado frouxo, os fabricantes de linha branca e da linha marrom, que inclui TVs e aparelhos de som, começam a indicar aumento de preços, alegando pressões de custos por causa da alta do câmbio e da energia, diz Alves, da Lojas Cem. Kiçula confirma a necessidade de aumento de preço por causa de elevação de custos. “O preço de hoje pode ser menor do que o preço de amanhã.”

‘Personal pechincha’. Em época de crise está mais fácil negociar e obter descontos. A constatação não é de uma consumidora comum, mas da “personal pechincha” Cristiane Vieira. Desde abril, ela começou a exercer essa nova atividade, após trabalhar por 12 anos na área administrativa numa empresa internacional. “Lá eu tinha de renegociar contratos e baixar custos o tempo todo”, conta.

Cristiane diz que hoje está mais fácil negociar descontos - Rafael Arbex/Estadão

Cristiane diz que hoje está mais fácil negociar descontos – Rafael Arbex/Estadão

A decisão de se iniciar na carreira surgiu de uma experiência pessoal. Cristiane começou a construir a sua casa e negociou cada parafuso usado na obra. Resultado: conseguiu reduzir em 40% o valor orçado da construção. Vendo que tinha talento para negociar – em parte herdado do pai, um bem-sucedido comerciante de carros –, ela detectou que existia mercado para esse tipo de serviço. “Não é da cultura do brasileiro pechinchar”, diz, lembrando que muitos dos clientes não têm habilidade nem tempo.

No começo, ela fazia negociações para noivos interessados em reduzir os gastos com o casamento. Depois, avançou para outros segmentos, como mobília e decoração de casas e até a compra do carro, algo que pode parecer trivial, mas que com a consultoria pode resultar numa economia significativa.

Cristiane conta que conseguiu diminuir em 10% o preço da SUV Ford Edge blindada. O preço pedido pelo carro ano 2012 era R$ 125 mil. “Depois de três dias de negociação, consegui reduzir o preço para R$ 113 mil.” Outra negociação recente bem-sucedida pela “personal pechincha” foi de decoração e mobília da casa. De um orçamento inicial de R$ 310 mil, ela conseguiu executar o projeto por R$ 262 mil. Um fator que ajudou foi o fato de as lojas de móveis e eletrodomésticos estarem com estoques altos e mais flexíveis no desconto.

Pelo contrato fechado, 50% da economia obtida fica para o cliente e a outra metade é a sua remuneração pelo serviço prestado. Hoje, Cristiane tem cerca de 50 clientes. De abril para cá, o negócio cresceu. Além do marido, a empresa ganhou três sócios.

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