Natal deste ano continua ‘made in China’, apesar da disparada do câmbio

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Natal deste ano continua ‘made in China’, apesar da disparada do câmbio

Márcia De Chiara

12 de novembro de 2015 | 05h00

varejo

Os produtos importados da China continuam predominando no Natal deste ano, apesar da disparada do dólar que, nos últimos 12 meses, acumula alta de quase 50% em relação ao real. Boa parte da oferta de itens asiáticos expostos nas lojas hoje é estoque remanescente, pois as vendas por ocasião da data em 2014 ficaram abaixo do previsto.

Mesmo que parte dos produtos seja sobra, o consumidor não vai encontrar neste ano preços do Natal de 2014 para os mesmos itens. No Natal do ano passado, o dólar estava cotado a R$ 2,55. Ontem fechou em R$ 3,76. De um lado, pressionados pela elevação do câmbio e, de outro, pelo consumo fraco, os varejistas dizem que estão repassando apenas parcialmente a alta do dólar para os preços em reais dos importados.

Mas quem percorre as lojas da região da rua 25 de Março, no centro da capital paulista, o maior polo comercial do País, especialmente de produtos chineses, constata que os importados estão mais caros em comparação ao Natal de 2014, com reajustes até equivalentes à alta do câmbio, apesar de as lojas anunciarem descontos.

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Loja da região da rua 25 de Março, em São Paulo, dá desconto de 10% para compras acima de R$ 100 (Foto: Nilton Fukuda/Estadão)

Um levantamento informal feito pelo Estado com vendedores revelou aumentos de preços para produtos idênticos. Um enfeite de árvore de Natal, por exemplo, que custava R$ 3,49 no ano passado, agora é vendido por R$ 5,36, na Armarinhos Universal. O reajuste é superior a 50%. Já na concorrente Rei do Armarinho, um pisca-pisca com cem lâmpadas de Led sai por R$ 12,20. No Natal de 2014, custava R$ 11,50. O aumento é de 6%.

“O mercado não está fácil e estamos repassando o mínimo necessário do câmbio para os preços”, afirma Pierre Sarruf, diretor do Rei do Armarinho e da Univinco, associação que reúne 3 mil os lojistas da região da 25 de Março.

Gustavo Dedivitis, presidente da Associação Brasileira de Importadores e Distribuidores de Bens de Consumo (Abcon), que reúne hoje 48 empresas que abastecem os varejistas, diz que os importadores não compraram praticamente nada para o Natal. “Estamos trabalhando com estoque antigo. Este é o nosso pior ano.” Ele conta que, de janeiro a outubro, as vendas do setor caíram 60% ante 2014.
O presidente da Abcon relata que, diante da alta do câmbio, há brasileiros, que são importadores de ocasião, que abandonaram as encomendas e deixaram os chineses sem receber.

Diante da fraqueza do mercado, David Zalim, diretor da importadora Iedek, que trabalha com bens de consumo fabricados na China e abastece grandes varejistas, diz que optou neste ano por trabalhar com estoque antigo. “A reposição está muito difícil e não dá para repassar todo o câmbio para o preço: o mercado não aceita.”

Nacionais. Além da sobras do ano passado, a grande oferta de produtos importados da China se mantém porque não há possibilidade de substituir esses itens por produtos nacionais. “A indústria brasileira acabou”, diz Cleide Silva, gerente da varejista Matsumoto. Entre os milhares de itens expostos na loja da rua Barão de Duprat, na região da rua 25 de Março, ela ponta um só fabricado aqui: Papai Noel feito de origami.

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Jeanette Pinna diz que há menos variedade de produtos este ano (Foto: Nilton Fukuda/Estadão)

Estoque antigo com preço novo. A aposentada Jeanette B. Pinna, de 70 anos, é uma cliente atenta das lojas localizadas na região da rua 25 de março. Todos os anos, nesta época, ela percorre as varejistas em busca de artigos para compor os enfeites de Natal que faz sob encomenda para vender. Mas neste ano Jeanette está frustrada. “As varejistas que no ano passado tinham só produtos de Natal não fizeram compras este ano. Colocaram estoques antigos só na parte da frente da loja”, observa.

A impressão de Jeanette é confirmada pelo próprios importadores. A aposentada diz que um sinal de que as lojas não compraram mercadoria nova é que no ano passado era possível encontrar o mesmo produto em estabelecimentos comerciais diferentes, o que não ocorre este ano.

Além de a oferta de produtos hoje estar mais restrita, a aposentada reclama dos preços altos. No ano passado, ela pagava por uma dúzia de botões decorados usados para a confecção de enfeites cerca de R$ 2. Neste ano, o mesmo produto sai por R$ 4,70. “O pessoal está vendendo estoque antigo, mas com preço novo.”

Novidade. A aposentada Lina Alves, de 62 anos, faz coro com artesã Jeanette. “Tem pouca novidade este ano. Os produtos parecem sobras do ano anterior”, observa.

Na semana retrasada, Lina conta que comprou enfeites para a árvores de Natal por R$ 8,50 e produto semelhante custava R$ 5,50 um ano atrás. O aumento é de 54,5% acima da variação do câmbio em 12 meses que beira 50%. “Produto chinês geralmente tem fama de ser barato, mas neste ano não. Por isso, vou gastar o mínimo possível neste Natal”, diz a aposentada.

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