Deixem a Gisele Bündchen em paz!

Marili Ribeiro

28 de setembro de 2011 | 15h51

Gisele Bündchen aspira ser mais do que uma top model global. Quer ser atriz. Por isso, tem apreciado comerciais onde possa interpretar, ainda que na maioria deles conte com meros 30 segundos para expressar seu talento. A agência de propaganda Giovanni+DraftFCB sabe disso e, para atrair a garota-propaganda mais cobiçada do Brasil, tem se esmerado em oferecer alternativas para a bela aplicar essa ambição. Já fez isso com a propaganda da operadora de tevê paga Sky e, agora, repetiu o padrão para a lingerie Hope. Mas enfrenta censura.

Ao brincar com os tradicionais padrões do machismo nativo, onde uma loira escultural se fazendo de vítima – especialmente em peças íntimas – consegue o que quer, a agência provocou a atenção da Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM). Sob a alegação de que recebeu “reclamações de indignação” a respeito da propaganda, o zeloso órgão público enviou ofícios ao Conselho de Autorregulamentação Publicitária (Conar), pedindo a suspensão da propaganda, e também à companhia, manifestando seu repúdio à campanha.

Deve-se  registrar que foi a mesma Secretaria que pediu medidas contra a campanha da Devassa, da Cervejaria Schincariol. Naquela, a loira em questão era a socialite americana Paris Hilton, que se assumiu como uma “devassa” em clima de pleno Carnaval. Época que, como todos sabemos, as vestais ficam em casa, enquanto o resto sai às ruas trajando biquíni, o que é transmitido para todo planeta. Lógico que o mundo real não funciona assim. Mas a Secretaria resolveu cuidar da moral e bons costumes. Não deu em nada.

Na atual propaganda, segundo os padrões do órgão público, a peça publicitária “reforça o estereótipo equivocado da mulher como objeto sexual de seu marido e ignora os grandes avanços que temos alcançado para desconstruir práticas e pensamentos sexistas”. Sua interpretação não encontra eco em sites de moda e redes sociais, que reagiram com humor ao comercial.  “A gente nem saiu para se defender e já apareceu um monte de mulheres nos defendendo”, conta orgulhoso Benjamin Yung, diretor de criação da DraftFCB.

Coube a empresa soltar um nota sobre a campanha alegando que “a propaganda teve o objetivo de mostrar, de forma bem-humorada, que a sensualidade natural da mulher brasileira, reconhecida mundialmente, pode ser uma arma eficaz no momento de dar uma má notícia.”  

Mais à frente, a Hope recorre a um argumento matador: “Foi exatamente para evitar que fôssemos analisados sob o viés da subserviência ou dependência financeira da mulher que utilizamos a modelo Gisele Bundchen, uma das brasileiras mais bem sucedidas internacionalmente. Gisele está ali para evidenciar que todas as situações apresentadas na campanha são brincadeiras, piadas do dia-a-dia, e em hipótese alguma devem ser tomadas como depreciativas da figura feminina”.

Pagar o cachê da modelo, que, segundo o mercado, gira em torno de R$ 5 milhões por contrato de um ano, é caro e, portanto, requer estratégia cautelosa. Ainda mais, no caso de uma empresa que vive de vender para mulheres. Ofendê-las, seria, no mínimo, burrice. Talvez, a Secretaria devesse mesmo é reclamar da presença da Gisele. Seu padrão de beleza é inalcançável. E isso, realmente, deixa a mulhereda puta da vida. A começar por mim.

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