Freiras na Devassa

Marili Ribeiro

25 de fevereiro de 2010 | 12h11

Num País que tem a Rede Globo, líder de audiência, veiculando a mulata globeleza nua em pêlo na telinha durante todo o chamado “período carnavalesco”, chama a atenção que a tal Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, órgão com status de ministério no governo federal, vá ao Conar (Conselho de Autorregulamentação Publicitária) justamente reclamar sobre uma veiculação publicitária protagonizada por uma americana vestida. Só mesmo a acirrada disputa pelo consumidor desse mercado cervejeiro, que vende mais de 10 bilhões de litros por ano e fatura mais de R$ 40 bilhões anualmente, justifica tamanha reação a fato isolado.

O incômodo denunciado pela secretaria está, nada mais nada menos, no que o órgão público classifica de “conteúdo sexista e desrespeitoso à mulher”. Minha caixa postal está repleta de comentários hilários sobre esse tema. O que mais gostei, não nego, comenta o  seguinte: “Até minha avó usando avental era mais sensual que a Paris naquele comercial”. Meu amigo se refere à socialite americana Paris Hilton, que foi a estrela da campanha da nova marca de cerveja do Grupo Schincariol, a Devassa Bem Loura. E, ao que tudo indica, aí reside o chamado xis da questão.  Há uma briga mercadológica em cena. Todos os lançamentos de cerveja nos últimos dez anos para o mercado de massa (o de garrafas de 600ml que comercializa mais de 70% do que é consumido no País) navegavam na mesmice. Veio a Antarctica Sub Zero, a Brahma Fresh, ou Skol alguma coisa. Ou seja, tudo subproduto das conhecidas marcas em cartaz ( já que, como sabemos, nesse segmento o conteúdo pouco difere um do outro). Agora, surgiu efetivamente uma novidade e, paralelamente, uma reação que denuncia o abalo na linha de conforto até então estabelecida entre os particpantes desse atraente negócio.

“A cerveja chama Devassa. E aí pessoal, a garota propaganda deveria ser quem? Uma freira? A conotação (ou o clima) deveria se passar em um domingo no parque? É o problema de toda regulamentação: pra se transformar em ditadura, é um pulinho. É quando podemos ver que nossos hermanos argentinos estão anos-luz à nossa frente”. Comenta um publicitário. É verdade, ele tem razão. Se a autorregulamentação é uma defesa do mercado contra o avanço dos que acreditam que a propaganda de bebida alcoólica deveria ser proibida e banida, o excesso de normas também tolhe a criatividade.  Não teria sentido pôr freiras tomando uma cerveja chamada Devassa. Não que as senhorinhas recolhidas à vida casta, não possam beber uma cervejinha. Mas, na certa,  a Igreja Católica teria mais do que direito de reclamar. Afinal, uma bebida chamada Devassa combina mesmo com figuras com o currículo de exposições públicas e  farras da herdeira da rede de hotéis Hilton, a Paris Hilton. Ou não?

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