Lucas rodou o mundo à procura de tendências

Marili Ribeiro

25 de abril de 2011 | 10h12

A “guerrilha do crochê” foi, entre as observações colhidas em viagem pelo jovem estudante de economia e caçador de tendências patrocinado pela agência DM9DDB, Lucas Cabral Maciel, a que melhor sintetizou a serventia da comunicação na era digital.

“Em 2005, a americana do Texas Magda Sayeg começou a levar a atividade de tricotar para as ruas”, conta Lucas. “Fez isso como uma forma de questionar o propósito meramente funcional do crochê, ao forrar troncos de árvores com pedaços de peças tricotadas. Sua ideia se espalhou pela internet e hoje há sites convocando participantes para as próximas intervenções pelo mundo. Um ônibus já foi forrado no Peru e me deparei com árvores inteiras vestidas de tricôs em outras cidades.”

Do alto de suas duas décadas de vida, Lucas pontifica: “A grande transformação do mundo é que estamos saindo da sociedade que colecionava bens e serviços para uma que coleciona experiências. O foco não é o acontecimento em si, mas a maneira de compartilhá-lo. As empresas devem ficar atentas à maneira de lucrar com isso”. O que permite esse movimento é a existência das redes sociais com sua infinita capacidade de conectar pessoas e distribuir resultados em qualquer escala.

Lucas foi escolhido entre os 4 mil jovens que se inscreveram num concurso nacional criado para a comemoração de 21 anos da DM9. Batizada de 99Novas, a ação propunha um blog a ser alimentado com 99 registros de tendências observadas em nove megacidades, por um jovem com a idade da agência. A fixação com o ‘nove’ se justifica por ser um número cabalístico para os sócios da DM9.

“Todo aniversário sempre foi comemorado. No ano passado, entretanto, em vez de festa pensamos em algo diferente, que celebrasse o nosso futuro e não comemorasse só o passado”, explica Sergio Valente, presidente da DM9DDB. “A gente queria novos pensamentos e maneiras de ver o mundo, sob a perspectiva de quem, assim como a agência, tem 21 anos e está de olho no futuro.”

Os inscritos passaram por um mini Aprendiz, o reality show que caça talentos profissionais. Os concorrentes tiveram de superar várias etapas, entre elas se vender num vídeo em inglês. Lucas exibiu sua maleabilidade de contorcionista, já que cursa a Escola Nacional de Circo, assim como seus conhecimentos de economia, por estar no último semestre da Universidade Federal do Rio de Janeiro. “A economia ajuda na tarefa de fazer a big picture”, diz o carioca de nascimento e baiano por criação.

Blefe

Humorado, divertido e sorridente, Lucas fala tanto quanto o baiano Valente, o que poderia ter tornado o almoço entre o presidente da DM9DDB e os nove finalistas uma disputa pela palavra. Mas Lucas conta que, ao contrário, Valente se limitou a responder uma pergunta de cada um. Foi nesse momento que Lucas temeu ter perdido a parada. Dois dos candidatos ainda não tinham passado pelo derradeiro bate-papo com Valente e, no almoço, perguntaram o que o executivo (se estivesse no lugar deles) escreveria no blog da viagem. Valente blefou, dizendo que não se preocuparia com o blog. Exatamente o contrário da ideia que Lucas havia defendido pouco antes, durante a entrevista final.

Os registros de Lucas no blog mostram que a aposta da DM9 foi produtiva e, talvez, bem mais barata do que uma grande festa para clientes, fornecedores e amigos. Embora a agência não divulgue o investimento feito, o garoto se hospedou em albergues (R$ 45,00 a diária, em média) na sua passagem por Nova York, Barcelona, Milão, Paris, Londres, Mumbai, Bangcoc, Xangai e São Francisco. Para se alimentar, recebeu diárias em torno de R$ 70,00.

O conteúdo colhido nas cidades visitadas está no site www.99novas.com.br. O relato proporcionará ainda reuniões com a turma que pensa ações de marketing para os clientes da DM9DDB e também se converterá em palestras com parceiros, previstas para julho.
Lucas acredita que o maior aprendizado da viagem foi perceber que, cada vez mais, as pessoas buscam coisas autênticas, não no sentido individualista de apenas possuir, mas por participar efetivamente de um processo de criar algo com outros.

“Nas redes sociais, fica fácil perceber que não existe mais nada original, porque alguém pode estar pensando o mesmo que você e criando algo muito semelhante. Então, estamos partindo para uma sociedade que vai construir coletivamente coisas para partilhar na plataforma digital com um grupo ainda maior. Esse é o próximo passo da evolução da humanidade”, filosofa o caçador de tendências Lucas.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.