MULHERICES – Óculos

Marili Ribeiro

07 de junho de 2009 | 15h55

Fui jantar no sábado à noite com uma amiga querida, e muito vaidosa, em um restaurante honesto e acolhedor de meu bairro. Novo nas redondezas, o lugar caiu nas graças da mídia e, agora, vive lotado. Com isso, mesma que a conversa seja em tom adequado para um ambiente coletivo, sempre acaba vazando para a mesa ao lado. Em especial, se nela estiver alguém sozinho fazendo uma refeição, o que o torna mais disponível para ouvir o que os outros falam.
Dado o cenário, vamos aos fatos. Minha amiga reclamou da dificuldade de ler o cardápio. Em tons de bordô e ocre, a peça não favorece a identificação do que está escrito se a luz não for suficientemente forte, segundo a argumentação dela. Eu, que uso óculos e defendo a teoria de que as mulheres para esconder a idade adiam ao máximo por sobre os olhos o dito cujo, disse a ela que, no caso, já era tempo de reconhecer as limitações do tempo. Findo o jantar – e para minha surpresa – o cidadão da mesa ao lado pediu desculpas e ponderou: “Ouvi um pedaço do que falavam sobre problemas oftalmológicos. Pois é, devo admitir que pedi ajuda ao garçom. Adiar o uso dos óculos, para assim tentar adiar o avanço dos anos, não é um problema apenas feminino”.
Não era paquera. Ele era grisalho e discreto. Devo então reconhecer que, em alguns aspectos, a igualdade dos sexos funciona. A vaidade, que encontrou terreno fértil para prosperar entre as mulheres, parece ser um deles. As conquistas feministas serviram para alguma coisa. Eles agora admitem que odeiam recorrer aos óculos para enxergar de perto.

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