O inferno é aqui

Marili Ribeiro

22 de junho de 2011 | 12h57

Na categoria Press Lions, ganhou o prêmio máximo – o Grand Prix de anúncios impressos – uma peça que se espelha no inferno de Dante. Criada pela agência JWT de Xangai para a fábrica de malas Samsonite, a imagem retrata um vôo em que, enquanto os passageiros estão no céu, as malas se debatem nos porões do inferno. Foi considerada pelo júri uma representação inédita para o segmento de malas, que sempre apela à ideia de resistência de seus produtos. E essa ideia foi representada, segundo ele, de forma a ter fácil compreensão para o consumidor do produto.

Isto posto, fica a pergunta: por que a foto acima para contar isso? Porque os delegados que pagaram caro para participar da 58ª edição do Cannes Lions Festival Internacional de Criatividade (cerca de 2.200 mil euros por uma semana de atividades, fora estadia e alimentação) estão se sentido no inferno proposto pela Samsonite.

Enquanto a área destinada a exibição de filmes e exposição das peças publicitárias finalistas são visitadas por poucos, na área das palestras rolam as filas dignas de final de campeonato futebolístico. Para conseguir lugar em algum auditório, os participantes enfrentam até uma hora de espera.

A foto acima é da entrada da apresentação da palestra da rede de agências Leo Burnet. O tema em discussão era A linguagem do século 21. Na fila, o comentário mais comum era que a linguagem do século 21 em Cannes deve ser “a espera interminável” em calor escaldante. A grita é geral. Franceses, coreanos, americanos, chineses, brasileiros entre outros reclamam da organização do evento. E, vamos combinar, todos têm razão.

O imenso interesse em eventos paralelos, e o abandono das áreas que já foram o coração do Cannes Lions, demonstram também aquilo que se previa com decorrência da grandeza que o festival assumiu nos últimos anos: o maior festival de propaganda do mundo perdeu o foco original e é agora um congresso de comunicação e negócios. Discussões em torno da essência da publicidade ficam em segundo plano.

Cannes Lions do B

Há quem aposte que outros festivais aproveitem essa característica mais comercial e desenvolvam um novo festival, mais voltado para os interesses dos profissionais de criação.

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