Plágio no embalo de Eduardo & Mônica

Marili Ribeiro

09 Junho 2011 | 22h11

Dizer que o vídeo online da Vivo baseado na ‘música-saga’ Eduardo & Mônica é um dos mais vistos do mundo – com 1,5 milhão de acessos no portal YouTube em apena um dia – atraiu cobiça. Com o vasto mundo da internet à disposição, alguém rapidamente localizou ação bem similar. E, para desgraça da operadora espanhola Vivo e da sua agência de propaganda, a Africa do Grupo ABC, a aplicação anterior tem roteiro idêntico.

A canção consagrada pela banda Legião Urbana, na década de 80, foi usada pela operadora de telefonia ATL (Algar Telecom Leste) para vender telefone celular. A empresa, que atendia no Rio de Janeiro e Espírito Santo, foi comprada há seis anos pela operadora Claro. O filme, segundo apuração do site de propaganda Propmark, foi criado em 2002, pela então agência Salles D’Arcy, que hoje não existe mais. No filme, há cenas de uma casal interagindo em festas e ambientes públicos e sempre se falando ao celular.

Verdade seja dita, seria injusto comparar em beleza estética o comercial da ATL com o da Vivo, que foi produzido pela O2 Filmes. São parecidos. Não há discussão. Mas na versão atual, constrói melhor um clima de celebração ao Dia dos Namorados e, lógico, da eterna busca pelo amor romântico e duradouro. Uma sina da humanidade. A associação com a marca Vivo se dá, no fim do filme, pela assinatura: “O amor nos conecta. A conexão transforma”. Boa sacada. Menos óbvia que a anterior, que se limitava a vender celular. E, acho, mais elegante.

Como habitual nessas situações de insinuação de plágio, o copresidente da Africa, Sergio Gordilho, alegou que se trata de “pura coincidência” o uso da mesma música, na mesma categoria de serviços. Mas, pode soar como negligência da agência não ter feito uma mera busca na web.

É verdade que há quase uma centena de versões da música. A utilizada no filme da Africa é a íntegra na voz de Renato Russo. No comercial da ATL, é uma interpretação de voz feminina.

Como a comunicação das empresas com seus consumidores envereda pela era do entretenimento não dá mais para só passar a mensagem publicitária. As agências precisam acrescentar algo que retenha a atenção do consumidor. A versão turbinada pela Vivo tem ritmo e não merece o fogo do inferno pela “semelhança” com a da ATL.

Porém – e há sempre um porém -, fica o alerta: Os publicitários não deveriam resistir aos novos tempos de acesso rápido às informações digitais. Hoje, nada escapa. Então, pesquisem mais. A aposta na sorte pode resultar em saia justa, difícil de justificar.

ATUALIZAÇÃO: Acabei de receber a seguinte informação: o diretor de arte Humberto Fernandez, que hoje trabalha na agência Africa, trabalhava na agência Sally’s Darcy em 2002, quando o filme da ATL foi feito. Fato que se confirma na ficha do LINKEDin.
Pode ser “pura coincidência”. Mas, fica o registro.

ATUALIZAÇÃO 2: Recebi um telefonema do copresidente da Africa, Sergio Gordilho, preocupado em esclarecer os seguintes pontos:
– O Humberto Fernandez, que hoje trabalha na Africa, realmente trabalhava na Sally’s Darcy na época. No entanto, não fazia parte da equipe de criação e produção do atendimento à ATL.
– O comercial da ATL não constava na Internet; foi postado no dia 9 de junho no Youtube, após já o clipe Eduardo & Mônica ter alcançado mais de 1,5 milhões de views.
– O comercial da ATL foi veiculado apenas na TV por 20 dias no Espírito Santo, em 2000.
– A ideia criativa era fazer um clipe que seguisse exatamente a duração da música, de 4 minutos. O objetivo foi mostrar a “versão 2.0” do casal que protagonizou uma das maiores histórias de amor, conexão e transformação da cultura nacional.
– Nosso mérito foi ter uma versão de alto nível, usar a música integralmente e, importante, com aprovação da família de Renato Russo, o compositor, na época integrante do grupo Legião Urbana.
– Até o momento já alcançamos mais de 3 milhões de views.