Suicídio involuntário & público

Marili Ribeiro

24 de julho de 2011 | 17h06


Cena recorrente na curta vida de Amy

Sai antes do show terminar. Era constrangedora a degradação a que se submetia aquela menina no palco na sua apresentação em São Paulo. Alcoolizada, drogada ou que fosse, Amy Winehouse vinha se suicidando e isso, ao contrário de seu talento como intérprete, estava vendendo. Havia enorme expectativa sobre o seu próximo descontrole. Descabelada, de peitos de fora, era assunto de primeira página.

A própria mãe veio a público endossar que se tratava de uma “morte anunciada”. Não só ela, aliás. Embora na boca dela soe mais cruel. O que mais ouço e leio nas redes sociais e a tal “obviedade” da morte da cantora.

Essa morte em praça pública provoca a inevitável constatação: não havia socorro possível para essa jovem? As clínicas de reabilitação, os terapeutas renomados, a indústria farmacêutica com sua parafernália de medicamentos indutores da felicidade, enfim, ninguém tinha nada a oferecer?

As reportagens publicadas até agora não exploram essa ineficiência dos recursos da ciência para combater vícios e fraquezas de personalidades conturbadas como Amy. Ela poderia ter superado seus dramas pessoais, inseguranças e medos. Todos, com ou sem talento, passam por isso em algum momento da vida. Inclusive as divas do soul com quem foi comparada. Etta James e Aretha Franklin, por exemplo, seguem vivas.

Em vez disso, a mídia incensa a blague marqueteira que enaltece “a sina de jovens mortos aos 27 anos vítimas do sucesso e das drogas”. Morte de celebridade gera lucro. Tem glamour. Que o digam os tabloides de Murdoch.

No afã de atrair a atenção, aliás, não faltam artigos e análises sobre o potencial de Amy, que superaria tal ou qual fulana. Que seria melhor do que sicrana. Frases feitas. Frases de impacto para simular consternação. Para que serve isso? Amy Winehouse caminhou para a morte com todos assistindo a esse reality show de fim dramático e sabido. Nada foi feito. Triste sociedade essa nossa.

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