Polêmica

Marili Ribeiro

20 de junho de 2009 | 19h23

Antes mesmo de sair de São Paulo, o vice-presidente de Criação da agência Leo Burnett, Ruy Lindenberg, havia comentado que era imperdível a leitura de um artigo publicado no jornal especializado do meio publicitário americano, o Advertising Age, escrito pelo polêmico articulista que assina Bob Garfield. No artigo ele advoga que “Cannes não interessa mais”. Todos os sites que acompanham o setor reproduziaram a peça. E todos os publicitários a caminho de Cannes comentavam isso. Não tanto pelo que diz Garfield, que se pauta por ser do contra – o que faz com rara competência -, mas também pela discussão que ele levanta sobre a essência da atividade. Afinal, Cannes é só filme comercial, como era, na essência, quando surgiu há 56 anos? Acontece que a comunicação ficou mais complexa com a era digital e outras disciplinas avançaram na tarefa de atingir o consumidor com as mensagens publicitárias.
Garfield escreve que “o festival está no meio do caos: não apenas pela recessão, mas por causa da crescente irrelevância de todos os comerciais apresentados lá”. Recomenda que quem vá a Cannes leve pílulas inibidoras do sono, porque considera os comerciais que vão ser apresentados “um desastre”. Acusa os publicitários pela situação já que eles se acham artistas, esquecendo que precisam vender desodorantes e celulares e hambúrgueres para sobreviver. Faz essas críticas baseado na seleção anual feita pela rede de agências Leo Burnett para indicar os comerciais que são possíveis ganhadores de Leões. “Neste ano, o Cannes Prediction é um presságio para vergonha e descrença. No rolo há apenas 29 comerciais de televisão. Muito justo. Na necessidade de buscar novas realidades, a agência foi agnóstica em relação a essa mídia. O problema é que, de todos, somente quatro são, sob qualquer padrão racional, merecedores de prêmios: o do creme analgésico Himani (da Publicis Ambience de Mumbai), no qual pessoas reais são utilizadas para dar forma a um ônibus ou aos mecanismos por trás de um relógio; o da London Transport (criado pela WCRS de Londres), que mostra a clássica cena do detetive apontando o assassino, só que questionando as diferenças no cenário daquele momento em relação ao início do comercial; o estranho, mas memorável comercial para o equipamento de depilação Esthe Wam, criado pela Ogilvy de Tóquio, no qual uma mulher desliza com uma bola de boliche nas mãos pela pista e deixa de derrubar um pino por causa de um mísero pelo encravado em seu corpo; e o filme “Whopper Virgins”, da Crispin Porter + Bogusky”.
Todos os filmes indicados por ele estão no hotsite de Cannes 2009 do Estadão.
As outras 31 peças indicadas, que vão de vídeos online até out­doors, não merecem consideração. Ele reconhece apenas a que vem sendo considera a melhor idéia do ano. É um case que também está virando mania em Cannes este ano. Spo perde em citações de relevância para o case da eleição do presidente Barack Obama nos Estados Unidos. Trata-se da ação feita na Austrália para estimular o turismo da região Queensland, que divulgou por meio de um prosaíco anúncio classificado “o melhor emprego do mundo”. A história da seleção do profissional virou um evento global. Talvez, aí esteja a grande questão. Cannes não tem mesmo que ser um espaço para idolatraçao dos comercial de 30 segundos.

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