Um festival de ideias que podem virar assunto de marca

Marili Ribeiro

26 de setembro de 2011 | 14h03

Um festival de inovação e criatividade voltado para os negócios, que tem um coração como símbolo e se chama Picnic, pode levantar suspeitas sobre sua seriedade. Mas é sério. Reúne profissionais de diversas áreas e este ano recebeu cinco mil pessoas de 33 países, em busca de soluções aplicáveis à vida em sociedade. Mantido pelo Ministério da Economia da Holanda, com apoio do European Regional Development Fund e da cidade onde acontece, Amsterdã, o evento teve este ano patrocínio das companhias Vodafone, Microsoft e BMW.

O Picnic convida à participação aberta em torno de um tema envolvendo designers, diretores de TI, publicitários, biólogos, médicos e engenheiros. Tanta liberdade de diálogo, somada à mistura de públicos, sugere que as coisas ditas ali podem cair no vazio. Mas não tem sido assim, pelo que contam os participantes brasileiros.

Pertinência

Patrícia Weiss, que até abril desde ano era vice-presidente de planejamento da agência de propaganda Leo Burnett e agora atua como consultora de planejamento estratégico, viajou para Amsterdã a fim de acompanhar as novidades do Picnic. Algo que há anos pretendia fazer, mas não conseguia e, por isso, acompanhava as discussões pela internet.

“A cada ano vejo palestrantes pertinentes em torno de temas abrangentes”, explica. “Neste ano, debateram o urbanismo do futuro – Urban Futures – com a apresentação de projetos para melhorar a vida das pessoas nos centros urbanos, que já absorvem 75% da população mundial de mais ou menos 8 bilhões de pessoas.”

O ambiente econômico e social holandês, há décadas capaz de garantir uma boa qualidade de vida para os seus habitantes, cria um ambiente favorável para abordar temas como consumo consciente, menor gastos de energia, economia de água e até vantagens da atuação em causas coletivas.

 “O festival e a cidade proporcionam imensa fonte de inspiração para as possibilidades que levam à transformação da sociedades e são ações que poderiam ser incentivadas no Brasil com assinaturas de marcas”, diz Patrícia. “O governo por aqui não encara certas tarefas de convivência que empresas poderiam encampar como forma de prestar serviço aos consumidores. Soluções como incentivar o hábito de dar carona poderiam ser abraçadas por seguradoras, ou mesmo pela indústria automobilística. Ações que produzem facilidades nos ambientes congestionados dos centros urbanos são saudáveis para as marcas.”

No evento, Benoit Jacob, vice-presidente de design da BMW, segundo Patrícia, reconheceu que a importância dos carros diminui na vida das pessoas, além de ele assumir a necessidade da reinvenção da indústria automobilística.

Cidade inteligente

O italiano Lorenzo de Rita, diretor do SoonInstitute, voltado para novas formas de comunicação e design, descreveu o caos nas cidade como consequência de vivermos em áreas construídas sem a interferência de arquitetos.

Diante do caos urbano, Adam Greenfield, fundador da UrbanScale, conceituou “as cidades inteligentes” do nosso século e apontou, para surpresa de Patrícia, as favelas cariocas na categoria. Elas são microcomunidades que se organizaram em plataforma social contínua, ativa e participativa. A publicidade, diz ela, deveria considerar esses aspectos da contemporaneidade que mobiliza as cabeças no Picnic e transformá-los em mensagens para gerar simpatia para as marcas que fazem negócios nessa sociedade.

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