Vacas, cofres e, talvez, um brasileiro na cúpula da GM

Marili Ribeiro

30 de agosto de 2010 | 20h55

Ronaldo Znidarsis GM

Ronaldo Znidarsis, diretor geral da GM

Foram cinco horas de diálogo _ ou melhor, uma tentativa de algo do gênero, já que ele não falava mandarim e o seu interlocutor não entendia inglês _ , até fosse compreendido que, na China, naquele momento (1997) não havia cofre disponível para guardar US$ 1,5 bilhão. Esse era o investimento que a GM faria na fábrica que construiu em sociedade com o governo local. Essa conversa insólita, na qual acertou outros detalhes como o pagamento para os operários em sacos de arroz, faz parte das muitas experiências vividas pelo economista brasileiro Ronaldo Znidarsis, que morou fora do Brasil em 22 anos, dos 25 que trabalha para na montadora americana.

Há dois meses de volta ao Brasil, Znidarsis, que já foi presidente da GM Venezuela, pode vir a ser o primeiro brasileiro a ocupar a presidência da montadora por aqui. Sim, é verdade que uma mulher, a americana Denise Johnson, acabou de assumir o posto. Mas isso não invalida a possibilidade a médio prazo. Afinal, currículo não lhe falta. Assim como disposição para tal.

Znidarsis saiu da Venezuela sob o fogo cruzado do governo daquele país com a iniciativa privada. Porém, nos quatro anos em que dirigiu a montadora, conseguiu reverter uma situação crítica em cenário de simpática aceitação. Fez isso usando uma boa campanha de marketing voltada para mostrar os benefícios sociais que a montadora promove ao gerar renda para 150 mil pessoas entre empregados diretos e indiretos. Usou assim a mesma tática que torna Hugo Chaves tão popular. O presidente venezuelano distribui benefícios sociais, patrocinados pelo dinheiro dos petrodólares, e com isso se mantém no poder apesar da forte crítica internacional ao seu governo.

Do seu tempo de Venezuela, o executivo também recolheu histórias hilárias. Ou trágicas, dependendo do ponto de vista. Uma delas é a de ter de parar a linha de produção da montadora por falta de componentes. O motivo? Vacas. Ou melhor, vacas afogadas no maior porto da Venezuela, onde as pelas desembarcavam. Chaves havia feito uma compra gigantesca de animais, mas esqueceu de planejar seu desembarque, acabou em desastre com o porto tomado por cabeças de gado na água. Bom, o resto Znidarsis  pretende contar em um livro em que vai relatar sua vida na GM.

Por enquanto, ele  acaba de assumir  o cargo de diretor geral de vendas e marketing da GM para toda a América Latina. Mas, seu principal foco será o mercado brasileiro, o maior deles.  Simpático, calmo e contador nato de bons casos, ele é um ótimo papo ao relatar com humor suas aventuras nas passagens por  China, Coreia e  países do Leste Europeu. Ou também, em países menos exóticos para empresas globais, como é o caso de Portugal, Itália, Alemanha, Espanha e Suíça, onde trabalhou como analista financeiro. Não vai faltar assunto para o futuro livro.

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