O tempo está acabando para os líderes que não têm uma estratégia de neutralidade de carbono

O tempo está acabando para os líderes que não têm uma estratégia de neutralidade de carbono

Redação

01 de novembro de 2021 | 14h55

Henrique Ceotto e Vicente Assis*

Se sua empresa não tem uma estratégia para competir e vencer em uma economia de neutralidade de carbono, é hora de criá-la. Da perspectiva dos negócios, a transição para uma economia carbono zero passou do ponto de inflexão. Hoje, 65 países representando 80% do PIB global já se comprometeram a atingir neutralidade de carbono entre 2050-60, com expressiva redução (20-30%) até 2030; isso inclui grandes economias como EUA e China. Grandes empresas estão sob pressão para eliminar as emissões de carbono de suas cadeias de suprimentos, operações, produtos e serviços. Essa pressão vai se intensificar e se disseminar, tanto para empresas públicas quanto empresas privadas, independentemente do tamanho. Não há mais onde se esconder. O Brasil possui uma vibrante economia de exportação, provendo o mundo com alimentos como grãos, carnes e café, matérias-primas como minério de ferro e aço, e produtos de alta tecnologia como aviões. Todas essas cadeias deverão ser impactadas durante esta década, seja pela introdução de tarifas de carbono interfronteiras, seja pelo desejo do consumidor por produtos mais sustentáveis. 

carbono neutro

Líderes empresariais e governamentais sabem que a única forma de impedir o aumento dos danos ao meio ambiente é deter as emissões de dióxido de carbono e outros gases. Foto: Pixabay

Por que a agenda é essencial?

Nossas pesquisas indicam que o risco físico das mudanças climáticas já é significativo em muitas regiões, prejudicando pessoas, ativos e até mesmo interrompendo atividades empresariais. O risco continuará a aumentar até que o mundo atinja emissões zero de carbono. Líderes empresariais e governamentais já entendem que a única forma de impedir o aumento dos danos físicos é deter as emissões de dióxido de carbono e outros gases do efeito estufa, que causam as mudanças climáticas. E enquanto as empresas assumem diferentes tons de marrom a verde, a economia real como um todo permanece utilizando carbono intensivamente e precisará ser descarbonizada rapidamente.

Em resposta, grandes tomadores de decisão estão impondo a necessidade de prevenir danos climáticos. Inovações com baixa emissão de carbono têm se acelerado agora que o capital investido em novas tecnologias atingiu a fase de implantação, diminuindo os custos das tecnologias verdes. 

Investidores querem saber se seu portfólio de ativos está avançando na agenda de neutralidade de carbono. Larry Fink, CEO da BlackRock, por exemplo, afirmou que sua organização pedirá às empresas às quais aloca capital para que divulguem “um plano de como seu modelo de negócio será compatível com uma economia de neutralidade de carbono”. 

A transição para a neutralidade de carbono terá implicações de longo alcance, que muitos executivos ainda não contemplaram. Alguns acreditam que o custo do carbono será compartilhado entre as empresas e repassado ao consumidor, mas isso está errado. Os custos serão distribuídos de forma desigual: as empresas com portfólios de produtos e operações com uso intensivo de carbono, alta exposição a regulamentação e baixos níveis de sofisticação tecnológica serão as que pagarão mais. Essa realidade alterará a dinâmica de concorrência em todas as indústrias e aumentará os custos das commodities. A distância entre os líderes de baixo carbono e os retardatários de alto carbono aumentará. As empresas deste último grupo poderão não ter um negócio viável. 

Quando se trata de avaliar os riscos relacionados ao clima, o mercado de capital já está à frente da economia real, já aprendeu mais sobre a exposição de seus investimentos ao risco climático do que os próprios gestores e está alocando fundos e ajustando o custo do capital (tanto do patrimônio líquido quanto das dívidas). Nossas análises  mostram que as empresas com portfólio de baixo carbono têm hoje um custo de capital pelo menos 100 pontos base menor que o de empresas com portfólio de alto carbono.

Como o Brasil pode transformar o jogo

O Brasil é provavelmente um dos poucos países que pode se tornar carbono negativo, capturando mais do que emite e oferecendo créditos de carbono, e um exportador de energia limpa através do hidrogênio verde. Essas oportunidades combinadas poderão tornar o país carbono negativo em 300 a 600 milhões de toneladas de carbono-equivalente até 2050. 

Segundo o observatório do clima, o País teve em 2020 emissões líquidas de aproximadamente 1,6 bilhão de toneladas de carbono-equivalente, sendo 2,2 bilhões de emissões totais e 600 milhões de abatimento (captura) por nossas florestas. 

Adicionalmente, o Brasil é o país com maior potencial (47 Mha) para emissão de créditos de carbono ligados à restauração florestal (conhecidos como ARR), já ajustada para a atratividade da terra para agricultura e pecuária. Isso significaria abater 700 milhões de toneladas de carbono-equivalente ao ano. Como referência, diferentes estudos estimam que será necessária a captura de 500 a 1.200 milhões de toneladas de carbono-equivalente da atmosfera até 2025 – e 5 a 10 bilhões até 2050 – para cumprir as metas do Acordo de Paris, sendo que hoje o pipeline atual de projetos garantirá apenas o abatimento (captura) de 150 milhões.

Outros 28% das emissões são ligados a atividades agropecuárias, advindas principalmente da fermentação entérica e do uso de fertilizantes sintéticos. O Brasil tem aqui a oportunidade de liderar o desenvolvimento de “carnes verdes” e “grãos verdes”. Pesquisas realizadas em outros países indicam que mudanças na alimentação do rebanho, aditivos alimentares e a reprodução seletiva poderiam reduzir as emissões por fermentação entérica em mais de 80%. O Brasil tem experiências de sucesso na otimização de cadeias agrícolas através da utilização do já estabelecido ecossistema público-privado agropecuário (cujo ente mais conhecido é a Embrapa) e poderia fomentar o rápido desenvolvimento de técnicas para o rastreio e redução dessas emissões, similar ao que tem sido feito em relação à integração lavoura-pecuária-floresta.

Finalmente o Brasil tem a oportunidade de usar suas fontes de energia limpa de baixo custo para desenvolver um mercado nacional de hidrogênio verde e se tornar um grande exportador global. O custo da energia corresponde a aproximadamente 70% do custo do hidrogênio e o Brasil é um dos países com menor custo de produção de energias renováveis no mundo: 15-40 USD/Mwh para hidro¹’², 12-17 USD/MWh para solar5’³, e 15-20 USD/MWh para eólica5,6. Com o contínuo barateamento das energias renováveis e a introdução de fluxos internacionais de hidrogênio, o Brasil poderia se tornar um dos grandes exportadores de energia limpa. Isso permitiria a descarbonização não somente dos fertilizantes sintéticos acima mencionados, mas também dos setores de transporte, geração elétrica e indústria que hoje utilizam combustíveis fósseis para queima ou como redutores e representam 24% de nossas emissões.

É importante ressaltar que essas alavancas podem não somente colocar o Brasil em posição de liderança na nova economia verde como também criar impactos socioeconômicos relevantes através da criação de empregos “verdes” de alto valor agregado em regiões de alta pobreza, como o Vale do Jequitinhonha em Minas, o Sertão Nordestino e as fronteiras da Amazônia Legal. 

* Variação de preço médio entre grandes usinas hidrelétricas (ex: Belo Monte, Jirau etc; fonte: Aneel) e pequenas centrais hidrelétricas (fonte: ABRAPCH).

** Conversão de moeda utilizada: 1 USD = BRL 5.20.

*** Variação de preços do 29º e 30º leilões de energia nova (A-4 e A-6), realizados em 2019.

Como entrar no jogo

Em um mundo onde muitas regras de concorrência estão mudando e nenhuma empresa ou executivo tem clareza perfeita do futuro, observar não é mais uma estratégia viável. É essencial engajar o quanto antes. Aqui estão algumas ideias sobre o que os líderes podem fazer.

Primeiro, líderes vão precisar rapidamente se tornar minimamente versados na ciência e economia do clima. Na maioria dos setores, os executivos estão apenas começando a compreender a transição para a neutralidade de carbono e seus possíveis efeitos em suas organizações. Eles precisarão eliminar rapidamente a lacuna de conhecimento e conscientização. Adicionalmente, governo, academia e indústria precisam desenvolver um plano para a formação do pool de talentos e o desenvolvimento das capacidades de engenharia e pesquisa e desenvolvimento necessárias para enfrentar esses desafios e operar as novas cadeias que surgirão.

Depois, os líderes precisarão planejar com antecedência e frequência: desenvolver uma agenda para atingir emissões zero de carbono até 2050, integrá-la à estratégia do negócio e atualizá-la com frequência para acompanhar rapidamente as mudanças de condições, tecnologias e cenários. Os executivos não devem tratar as ações climáticas como uma questão secundária ou um projeto de sustentabilidade, mas sim como uma questão de negócios tal como ela é, pois diversas cadeias serão impactadas. 

Uma estratégia de negócios otimizada para o clima combinará elementos de defesa e ataque, mas mais ataque do que defesa. Defesa envolve ações como aposentar e redefinir ativos com alta intensidade de carbono e definir um programa de descarbonização para mudar uma empresa de marrom para verde, enquanto se cria resiliência contra riscos climáticos físicos (e.g., secas, inundações). Ataque significa construir novos negócios de baixo carbono, buscar oportunidades de M&A e ampliar o uso de soluções climáticas voltadas para o meio ambiente, como reflorestamento.

Por fim, à medida que os lideres elaboram e implementam estratégias para a transição à neutralidade de carbono, eles devem contar sua própria história. Os investidores estão definindo as regras para julgar os planos de carbono zero das empresas e chegando a suas próprias conclusões. Ao conversarem com investidores, os líderes devem ajudá-los a entender os motivos da empresa para abordar essa transição, as ações e investimentos que estão realizando e os efeitos que esses terão. Os líderes devem ajudar a moldar os padrões de divulgação, de modo que esses padrões reflitam os desafios que enfrentam.

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A descarbonização da economia global atingiu um ponto de inflexão e o cumprimento da aspiração de limitar o aquecimento global a 1,5 ºC, conforme o Acordo de Paris, se tornou prioridade para a maioria das nações, não somente pela questão climática, mas também pelo potencial socioeconômico e diferencial tecnológico que uma economia verde irá criar. O Brasil pode ter um papel fundamental nessa nova economia, que apesar de incipiente, acelera a passos largos. Mas, para isso, governo e indústria precisam rapidamente se organizar para criar um plano robusto, acionável e exequível nesta década.

As organizações não operam mais em um mundo com um mercado estável – e  essa instabilidade também está tornando o clima empresarial mais incerto. Ignorar essas tendências não é a resposta. Os executivos devem planejar como suas empresas se ajustarão – e prosperarão – em uma economia neutra em carbono. Aqueles que liderarem a transição agora, inovarem em velocidade e se adaptarem à medida que as informações imperfeitas de hoje melhorarem ganharão mais assim que as mudanças se desenrolarem.

* Vicente Assis é Sócio Senior da McKinsey no Brasil e Henrique Ceotto é Sócio da McKinsey no Brasil

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