PIB, Morcegos e Borboletas

Monica de Bolle

01 de junho de 2017 | 17h56

Ao saber que a economia brasileira crescera 1% no primeiro trimestre de 2017, Temer aderiu às práticas Trumpistas. Foi ao Twitter e bradou: “Acabou a recessão!”. Em grande estilo “fatos alternativos”, o Presidente disse mais — “Isso é resultado das medidas que estamos tomando”. A não ser que Temer tenha se tornado um rei da soja ou do milho da noite para o dia, a verdade inconveniente é que não é bem assim.

O PIB do primeiro trimestre do ano foi quase inteiramente o resultado do extraordinário desempenho do setor agropecuário, setor de Joesley, em especial das safras recordes de milho e soja. Em relação ao primeiro trimestre de 2016, o setor agrícola brasileiro teve expansão de inacreditáveis 15,2%. A menos que a política fiscal tenha passado a ser um potente fertilizante, não parece que foi o teto dos gastos, tampouco a reforma da Previdência a gerar o estrondoso resultado. O resto da nossa economia continua mergulhado no vermelho mais profundo, vermelho do qual não deverá emergir tão cedo. Afinal, estamos agora no período pós-Joesley. O PIB, como escrevi recentemente, retrata o período pré-Joesley. A diferença que isso faz…ah, a diferença que isso faz.

O Ministro da Fazenda, ensaiando passos Manteguianos, disse ter sido hoje um “dia histórico”. Não discordo do Ministro quanto à ideia de que o Brasil atravessa um momento histórico — momento de revelações indecentes, revelações sem trégua, dia após dia. O que isso nos diz é que a comemoração do PIB é não apenas prematura, mas profundamente equivocada. Como bem sabe o Ministro, há diversos fatores que determinam a saída de uma recessão, a começar pela necessidade de se ter mais de um trimestre de PIB positivo. O critério técnico é que se tenha ao menos dois trimestres consecutivos de expansão da atividade. Para além disso, é preciso que o investimento e o consumo das famílias demonstrem algum sinal de recuperação. O IBGE, entretanto, nos mostrou que tanto um, quanto outro, continuam em queda.

O agravamento da crise política e a perspectiva de que o governo moribundo de Michel Temer arraste o que sobrou da economia brasileira para a paralisisa necrosante é real. O que virá pela frente com novas revelações das delações da JBS deverá servir de golpe de misericórdia nesse País tão maltratado por políticos interessados somente em seu próprio bem-estar e proteção. Os cenários de recessão em 2017 que praticamente não existiam no pré-Joesley passaram a assombrar o pós-Joesley.

O último capítulo de meu livro “Como Matar a Borboleta-Azul: Uma Crônica da Era Dilma” intitula-se “Morcegos ressuscitam borboletas?”. A borboleta-azul é o crescimento, os morcegos não precisam de explicação.

Eis um trecho: “Morcegos ressuscitam borboletas? Morcegos ressuscitam borboletas-azuis? Serão os morcegos, ao menos, capazes de regenerar o ambiente propício para o ressurgimento das larvas de tão bela criatura?”

Como imaginava, a resposta é não.

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