Realidade Alternativa

Monica de Bolle

15 de fevereiro de 2017 | 14h53

Há a realidade real – a dos 12 milhões de desempregados, a dos salários ainda em queda, a da violência nas ruas de alguns dos principais estados do País que já não podem pagar o funcionalismo público. Há a realidade das pessoas que sentem-se inseguras ao sair na rua, que não vêm como irão sustentar a família até o fim do mês, que assistem os telejornais e ficam aturdidas ao perceber a falta de conexão entre os homens de Brasília e o seu cotidiano, devastado pela recessão. Há a realidade dura de um governo que, em comunhão com o Congresso Nacional, prepara agenda de salvação individual ante as delações da Odebrecht. Estados falidos, governo eticamente comprometido, Congresso…ah, o Congresso.
Contudo, há também o Ministério da Verdade. A verdade de que as reformas estão avançando, seja lá o que isso queira dizer – afinal, aprovado mesmo, só o teto dos gastos. A verdade de que sim, esse governo deu alguns passos importantes para dar rumo ao País desgovernado, legado de Dilma Rousseff. A verdade verdadeira de que para alcançar esses objetivos foi preciso fazer pacto com Congresso desgastado, manchado por tudo o que veio à tona desde que foi acionado o jato certeiro, incansável de Curitiba. A verdade de que se há no mundo todo falta de conexão entre políticos e população, no Brasil o fio tênue rompeu-se há muito, a representividade em xeque deixando flanco mais do que aberto para as eleições de 2018. Eleições que poderão dar continuidade às reformas. Ou, não.

Reza a mitologia contemporânea que o papel ondulado está vendendo mais, que os pedágios estão registrando maior volume de carros, que há sinais de vida em algumas áreas do varejo. Então, viva! Eis a recuperação. Afinal, papel e pedágio não deixam dúvidas. As cartas estão lançadas, atravessamos o Rubicão, adeus pinguela, a ponte apareceu. Agora vai. O Banco Central vai reduzir os juros mais rapidamente – até porque atrasado está na empreitada, como mostra a alta da taxa de juros descontada a inflação, sinal de aperto monetário apesar da queda da Selic. Agora vai porque temos a melhor equipe econômica do Brasil, do planeta, do universo. Agora vai porque o Brasil é o País do futuro, aquele que demora como Godot. Disse um sábio político brasileiro – hoje parece oxímoro – que a equipe econômica, por melhor que seja, não é dona de seu destino. Não há espaço para pensamentos desse tipo na mitologia contemporânea. A mitologia só permite a exaltação, críticas são vistas com enorme desconfiança. Quem é você para criticar? Quem é você para dizer que ir de situação péssima para situação muito ruim não é um enorme avanço? Quem é você para criticar os “se”: se a reforma da previdência sair, se a reforma trabalhista andar, se as concessões e os investimentos vierem, se o teto dos gastos não desabar em 2019?

Pensemos nos “se”. “Se” é hipótese, algo que tem chance de acontecer, ou não. Para que tudo dê certo no Brasil, para que vingue a mitologia contemporânea, é preciso que todos os “se” aconteçam. Suponhamos que os “se” tenham probabilidade de 50% de acontecer, um cara ou coroa generoso. A probabilidade de que todos aconteçam em sucessão é de 6,25% — eleve 0,5 à quarta potência. Seis vírgula vinte e cinco por cento é a chance de concretização da mitologia contemporânea, da realidade alternativa. A chance de que cenário menos auspicioso ocorra é de 93,75% de acordo com esse cálculo camarada. O que é mais provável?
De longe, vejo a complacência se espalhar de forma assustadora. Esquecidos são os mortos do Espírito Santo, o drama dos presídios, o desempregado desiludido, o povo aturdido. Aplausos, aplausos. Aplausos ao governo que faz reforma andar com conchavo para sustentar. É isso, afinal, que temos para o jantar.
“Se quiser guardar um segredo, é preciso escondê-lo de si”.

“Aquele que controla o passado, controla o futuro. Aquele que controla o presente, controla o passado”.
George Orwell, tão atual. Do norte alaranjado ao sul amarelado.