Trumpismo: A Primeira Semana

Monica de Bolle

29 de janeiro de 2017 | 14h05

Hiperatividade destrutiva, talvez seja essa a melhor forma de caracterizar a primeira semana do histriônico novo presidente dos Estados Unidos. O Trumpismo desenfreado, em poucos dias, criou fendas e rusgas, fatos alternativos, e acusações à “mídia golpista”. Sim, a mais antiga e reverenciada democracia do planeta está nas mãos da figura nada simpática de Steve Bannon algoz que afirma ser a mídia espécie de “partido de oposição”. O abrasivo estrategista de Trump, como um bananeiro de republiqueta qualquer, ordenou que a imprensa se calasse.

Mas, adianto os fatos. Washington, hoje, é terra em transe, invadida pela distopia de um líder narcisista, voluntarioso, despreparado. Líder que assina profusão de decretos sobre acordos comerciais, imigração, muros, refugiados, reúne-se com empresários para dar-lhes ultimatos, tudo em frente às camâras, a presidência como novo reality TV. Não abandonou o twitter, tampouco seu telefone de cidadão comum. Afinal, esse é seu pódio, seu habitat. Trump é a personificação do troll virtual, aquele que esbraveja e cospe vitupérios sem qualquer vislumbre de respeito pelo cargo que ocupa – ou pelos cidadãos do país que lidera. Washington e o mundo assistem o espetáculo embasbacados.

O Trumpismo mostrou garra feroz e inconsequente ao criar, desnecessariamente, embate diplomático com o México. Em demonstração de desrespeito e vulgaridade, o presidente norte-americano assinou decreto sobre a construção do muro enquanto estavam aqui na cidade diplomatas e ministros mexicanos. Diplomatas e ministros que aqui vieram para tratar dos primeiros passos na renegociação do Nafta, o acordo multilateral entre Canadá, EUA, e México. Foram embora de mãos vazias, enquanto Trump se desentendia com o presidente mexicano. Visita marcada para a próxima semana cancelada foi por Peña Nieto. Ainda que Trump tenha tentado desfazer parte do estrago com telefonema posterior, a hostilidade está dada. A hostilidade haverá de marcar as negociações do Nafta, o que não é bom para ninguém. Em meio a todo esse barulho, como se já não fosse o suficiente, Trump ameaçou solapar o México com tarifa de importação de 20%, sem se dar conta de que quem pagaria por sua medida impensada seria o consumidor norte-americano. Lembra alguém.

O governo brasileiro saiu-se bem. Em nota para a imprensa, o Itamaraty condenou – em linguagem diplomática – os primeiros gestos de Trump, e alertou sobre as repercussões de seus atos para as relações com o restante da América Latina. Bravo.

Os decretos, as atitudes, a exaltação da tortura como prática eficaz – ao contrário do que dizem seus escolhidos para a área de defesa – deixaram o mundo em alerta. Contudo, mais emblemático do que tudo isso é observar de perto a atitude dos americanos, da maioria que não votou em Trump, e dos eleitores independentes que nele votaram, mas que já parecem ter se arrependido. O índice de aprovação presidencial caiu, na primeira semana, de 40% na posse, para 36% sete dias depois. A insistência de Trump em repetir que houve fraude eleitoral inexistente, que sua posse teve a maior plateia da história – contrariando as fotos aéreas implacáveis – a introdução de fatos alternativos como nova realidade, a guerra com a imprensa, tudo isso deixou americanos atônitos. Mais aturdidos ainda ficaram quando o presidente assinou decreto barrando a entrada de imigrantes de sete países de maioria islâmica, sete países que, embora tenham seríssimos problemas com grupos terroristas, não carregam o estigma de terem seus cidadãos participado nos ataques de 11 de setembro de 2001 – ou mesmo de qualquer ataque terrorista em solo americano. Residentes, indivíduos portadores do desejado Green Card, foram tratados na fronteira, nos aeroportos, como criminosos ante a confusão decretada por Trump. Protestos se alastraram pelos principais aeroportos do país exatamente uma semana após a marcha em Washington, cujas adesões mundo afora foram nada menos do que surpreendentes.

O excepcionalismo americano que sempre fundamentou o patriotismo e o orgulho dos norte-americanos está se esvaindo ante a percepção de republiqueta ditatorial imposta pelo Trumpismo desenfreado. Todos esperam a reação do Congresso, todos aguardam ansiosos o teste dos pesos e contrapesos que sempre foram tidos como certos. Nada é certo no Trumpismo, tudo é questionável. Afinal, o Trumpismo não é o populismo nacionalista de sempre, mas o neopopulismo nacionalista de rede social, que atrai milhões e milhões de desinformados com mensagens simples, diretas, e falsas.

É preciso estarmos atentos para as lições desse neopopulismo virtual. Há riscos nada desprezíveis de ascensão do extremismo para o Brasil e para a América Latina nos próximos dois anos. O Chile terá eleições presidenciais em novembro de 2017. Em 2018, a Colômbia terá eleições presidenciais em maio, o México em junho, o Brasil em outubro.

Disse Bertrand Russell que opiniões provenientes da paixão são sempre aquelas para as quais não há fundamento. A paixão é a medida da ausência de convicção racional. Na América Latina, foram muitas as vezes em que caímos na armadilha da paixão. Está na hora de parar, como bem revela o Trumpismo nascente.

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