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A Reforma da Previdência e a Política Monetária Agitam o Mercado

Os planetas se alinham para o Banco Central voltar a baixar a Selic e o primeiro corte deve vir no segundo trimestre com as primeiras votações da Previdência

mosaicodeeconomia

01 Fevereiro 2019 | 15h45

Marcelo Kfoury Muinhos*

Já estamos no segundo mês do ano, e conseguintemente, no segundo mês da era Bolsonaro. Obviamente qualquer balanço é assaz prematuro, principalmente num momento em que o novo congresso ainda nem assumiu, mas sinto “mixed feelings” sobre o período.

Dos quatro grupos que formam o governo, há um desequilíbrio na avaliação sobre cada um.
– Econômico – com perfil parecido com o do governo Temer, o time econômico liderado por Paulo Guedes tem surpreendido positivamente pela coragem em colocar a mão em vespeiros como o sistema S e na rapidez no trato com a reforma da previdência
– Ideológico – já esse tem surpreendido negativamente pela ideologia rasteira e propostas e comentários pueris. Esse grupo é basicamente capitaneado pelos ministérios da educação, relações exteriores e da família, que têm em comum uma composição ideológica meia pentecostal meia Olaviana.
– Militar – por enquanto, avaliação mais neutra, não havendo  nada que os desabone e na verdade, a eloquência do vice-presidente surpreende positivamente fora e traz desconforto dentro do governo.
– Núcleo Familiar – esse grupo é o grande passivo do presidente até agora, personificado na figura do filho senador .

A agenda política traz duas pautas para fevereiro, a eleição da mesa das casas legislativas e a apresentação da reforma da previdência. Todos aguardamos como será o tramite legislativo das propostas do novo presidente. Por mais que tenha havia renovação do congresso, os lideres serão os mesmos, como mostram as eleições de figurinhas carimbadas para os postos de comando do Congresso. Porém, não necessariamente, a forma do novo governo de tratar a sua pauta legislativa será a mesma. Os congressistas aparentemente não serão convencidos com cargos no governo ou emendas parlamentares, sendo assim qual será o benefício para os congressistas em votarem medidos impopulares de interesse do executivo? Enfiar goela abaixo dos deputados pode funcionar nos primeiros meses, dado o capital político do recém-eleito presidente, mas esse modus operandi não será sustentável no médio prazo. A ver se até o meio do ano, pelo menos, a reforma da previdência vai estar bem encaminhada.

A grande novidade na conjuntura econômica é que o Banco Central parece que está cogitando reiniciar o ciclo de corte dos juros. Tanto a inflação como a atividade demandam juros estimulativos, ou seja, abaixo dos juros neutros, quaisquer que esse os sejam. Em termos concretos, os juros de um ano a frente estão ao redor de 7,10%, e a expectativa de inflação 12 meses à frente em 3,87%, portanto os juros reais ex-antes estão ao redor de 3,2%. Supondo que os juros neutros estejam abaixo de 4, essa diferença entre os juros efetivos e o neutro não é  assim tão considerável para estimular a economia e o emprego. Além disso, dado que a economia internacional está diminuindo o passo na normalização monetária (juros devem subir menos nos EUA) isso deve abrir caminho para o banco central voltar a flexibilizar a política monetária. Aparentemente, o timing será dado pela política. Se a reforma da previdência começar a andar em abril, podemos ter o banco central voltando a cortar os juros em maio/junho. Espera-se então, alguma sinalização mais dovish por parte do Copom já na próxima semana.

Portanto, estão dadas as condições para mais um ciclo de afrouxamento monetário: inflação corrente confortavelmente abaixo das metas, recuperação anêmica do crescimento, econômico, gradualismo da política monetária nos Estados Unidos, e boas perspectivas de aprovação da reforma da previdência. Os planetas se alinharam para o Copom voltar a baixar a Selic e o primeiro corte deve vir no segundo trimestre.

*Professor e Coordenador do Centro Macro-Brasil da FGV-EESP