Arte e a Economia
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Arte e a Economia

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14 Setembro 2017 | 15h17

por Vladimir K. Teles*

 

 

Certa vez, ao visitar a Galeria Nacional em Londres, após apreciar uma exposição de Michelangelo, e dezenas de obas de arte espetaculares, incluindo Rafael, Leonardo da Vinci, Rembrandt, Van Gogh, Monet, entre outros.. me deparei com a imagem nesta foto.

Uma escola levou as crianças para a galeria onde eles aprenderam sobre aquelas obras de arte não apenas ouvindo, mas tentando desenhar as pinturas enquanto os professores lhes instruíam sobre os significados de cada uma delas.

 

Fiquei com inveja. Como eu gostaria que meus filhos tivessem essa oportunidade! Eu comecei a comprar as gravuras de diversas daquelas obras que as lojas dos museus vendem e passei a tentar fazer o mesmo exercício com meus filhos em casa.

 

Muitas daquelas obras eram expressões de crítica, além de expressarem valores e sentimentos a serem contemplados. Ao aprender sobre essas obras os jovens têm uma oportunidade de aprofundarem sua visão sobre o mundo e sobre o ser humano de uma forma muito lúdica.

 

Porque isso é importante para a economia? Porque a cultura é uma forma de transmissão de preferências (Bisin e Verdier, 2001), inclusive sobre preferências envolvendo políticas públicas (Alesina e Fuchs-Schundeln, 2007), padrão de consumo (Bursztyn e Cantoni, 2016), família (Fernandez e Fogli, 2009; Bisin e Verdier, 2000), dedicação ao trabalho (Dopke e Zilibotti, 2008), disposição de cooperação (Tabellini, 2008), entre outros. Ao mesmo tempo há também preferências perigosas que podem ser transmitidas entre gerações por séculos, como preconceito (Voth e Voitlander, 2012).

 

Em resumo, as instituições que fundamentam os destinos da nossa sociedade e da economia são em parte resultado das preferências que podem ser formadas e/ou transmitidas por diversas formas de arte.

 

A questão que surge então é: Toda forma de arte é desejável para a sociedade? Ou melhor, deveria o governo subsidiar toda e qualquer expressão pretensamente artística?

 

É difícil definir um padrão claro para a qualidade artística, ou para a virtuosidade de cada obra. Renoir ou Monet foram revolucionários redefinindo padrões de arte com o impressionismo. Beethoven significou uma quebra de estilo na música, provocando uma transição das estruturas formais do classicismo para o romantismo, onde a expressão do sentimento passa a ser mais importante do que a forma. Se houvesse um padrão estrito do que seria aprovado como arte certamente eles não seriam aprovados em seu tempo.  Por outro lado há a necessidade de se escolher cuidadosamente onde os escassos recursos públicos devem ser gastos. Como resolver tal dilema?

 

Em particular eu tenho como opinião que o governo deve subsidiar, dentro de suas capacidades orçamentárias, a educação sobre os princípios básicos da arte, incluindo os grandes mestres, o seu significado e sua posição na história. O estado deveria se concentrar em educar a sociedade para que esta seja capaz de avaliar e escolher dentre os tipos de arte. Ao mesmo tempo, a história mostra que a censura e a definição do que pode ou não ser exibido acaba sendo usado de forma perversa, levando à sua captura por interesses particulares. Assim, o melhor seria que não haja censura, mas que ao mesmo tempo, as pessoas tenham a capacidade de ter uma visão crítica ao que são expostas.

 

Ao invés de se censurar o que é de mau gosto ou ruim, deve-se educar as pessoas para que elas seja capazes de avaliar, criticar e decidir por si mesmas o que é bom.

 

 

 

Referências

 

Alesina, Alberto, e Nicola Fuchs-Schündeln, (2007) “Good-Bye Lenin (or Not?): The Effect of Communism on People’s Preferences,” American Economic Review 97 (2007), 1507–1528

 

Bisin, Alberto e Thierry Verdier (2000) “Beyond the Melting Pot: Cultural Transmission, Marriage, and the Evolution of Ethnic and Religious Traits,” Quarterly Journal of Economics, 115, 955-988.

 

Bisin, Alberto e Thierry Verdier (2001) “The Economics of Cultural Transmission and the Dynamics of Preferences,” Journal of Economic Theory, 97, 298-319.

 

Bursztyn, Leonardo e Davide Cantoni (2016) “A Tear in the Iron Curtain: The Impact of Western Television on Consumption Behavior”, Review of Economics and Statistics, 98(1): 25-41.

 

Doepke, Matthias e Fabrizio Zilibotti (2008) “Occupational Mobility in the Spirit of Capitalism” Quarterly Journal of Economics, 123, 747-793.

 

Fernandez, Raquel e Alessandra Fogli (2009) “Culture: An Empirical Investigation of Beliefs, Work and Fertility,” American Economic Journal: Macroeconomics, 1,146-177.

 

Tabellini, Guido (2008) “The Scope of Cooperation: Values and Incentives,” Quarterly Journal of Economics, 123, 905-950.

 

Voth, Hans-Joachim e Nico Voigtlander (2012) “Persecution Perpetuated: The Medieval Origins of Antisemitic Violence in Nazi Germany” Quarterly Journal of Economics.

 

*Professor e Vice-diretor da FGV/EESP