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Brasil gasta muito com Juros da Dívida, mas gastaria menos com Ciro?

Ciro denuncia que país gasta muito com juros, porem, as políticas propostas por Ciro tendem a aumentar gastos com juros, ao invés de reduzi-los.

mosaicodeeconomia

21 Junho 2018 | 15h42

Vladimir K. Teles*

 

O pré-candidato à presidência da república Ciro Gomes clama que o maior gasto do governo é com juros. Com essa afirmação, que não é verdadeira, pois ele inclui os gastos com amortizações na conta, ele tenta tirar o peso da necessidade da reforma da previdência, o que mostra uma tendência populista muito preocupante como vou argumentar mais adiante.

Ainda assim eu concordo com ele em um ponto: O Brasil gasta muito com juros da dívida e precisa gastar menos. E porque o Brasil gasta muito com juros? Basicamente porque o nível da dívida é muito alto.

Qualquer pai de família entende essa lógica simples: Se desejar comprar uma casa ou um carro financiado, uma parcela de sua renda mensal será para pagar os juros do financiamento, e quanto maior for o financiamento, mais gastará com juros ao mês.

De forma similar, a partir do momento que o governo resolveu gastar mais do que arrecada (piorando seu resultado primário, i.e. receitas menos despesas), passou a aumentar sua dívida, saindo de um patamar de 60% do PIB no início da década para alcançar os atuais 90%, e com isso, os gastos com juros.

Mais que isso. No ano de 2017 o governo gastou com gastos obrigatórios (que incluem previdência, mas não incluem juros) 103% da sua receita primária (que não inclui endividamento). Ou seja, a dívida tende a aumentar a não ser que o governo consiga fazer uma reforma da previdência significativa, dentre outras.

Quando Ciro tenta tirar o peso da previdência do problema, mostra a sua falta de compromisso com a trajetória da dívida, e assim acabará, se eleito, ao cumprir sua prescrição de política, aumentando a dívida e os gastos com juros!

Assim, para reduzir os gastos com juros, o governo precisa reduzir sua dívida, e, para tanto fazer reformas que reduzam os gastos obrigatórios.

As alternativas são um delírio:

I- Calote: Na prática dar um calote na dívida seria o mesmo de dar um calote nos brasileiros que têm conta no banco. O impacto disso na economia seria apocalíptico;

II-Reduzir Juros: Os juros que o governo paga sobre sua dívida hoje já estão baixos, e ainda assim a dívida cresce, pois, o nível da dívida é muito alto;

III- Aumentar o crescimento da economia: Ciro Gomes propôs essa medida em uma palestra, como se crescimento fosse uma variável de seu controle. Porém, vale lembrar que a literatura de crescimento deixa bem claro que dívida alta reduz o crescimento. Assim, sem não cortar despesas e a dívida continuar a crescer, não há como aumentar o crescimento, e os gastos com juros irão subir ainda mais.

Nós já vimos essa novela antes, na década de 80, e sabemos as cenas do próximo capítulo. Crise da dívida leva a baixo crescimento e inflação crescente. Não é agradável fazer reformas, e nem tampouco popular, mas infelizmente as consequências de não as fazer são ainda mais perversas.

 

* Professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) na Escola de Economia de São Paulo (EESP). Este artigo expressa opinião do autor, não representando necessariamente a opinião institucional da FGV.