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Debate Perspectivas Econômicas e Políticas para 2019

Grande risco do novo governo é a articulação com o Congresso para o ajuste fiscal e não a situação internacional

mosaicodeeconomia

26 de novembro de 2018 | 15h37

*Marcelo Kfoury Muinhos
Na última sexta-feira (23/11), o centro Macro-Brasil da FGV-EESP patrocinou mais um evento de análise de conjuntura econômico-política. O seminário iniciou com uma apresentação do diretor de Política Monetária do Banco Central, Reinaldo Le Grazie, que enfatizou a atuação da política monetária do Banco Central, que conseguiu não só trazer a inflação de volta para as metas, como também ancorar firmemente as expectativas para os próximos anos. Além disso, apontou os avanços institucionais para diminuir o spread bancário e expandir o crédito mesmo num momento de queda da atuação do BNDES. O diretor também comentou sobre a redução do apetite de risco dos investidores pelos países emergentes com a normalização da política monetária nos Estados Unidos e o concomitante fortalecimento do dólar.
Em seguida ocorreu um debate sobre as perspectivas para o próximo ano. Segue o resumo breve do evento:
– Luiz Fernando Figueiredo, CEO da Mauá Capital e ex-diretor do BCB,  enfatizou que a economia global está terminando um ciclo de relativa exuberância (até insinuou que seria quase uma ilha da fantasia) quando os ativos passaram uma década subindo sem parar. Portanto, já era hora de se voltar à normalidade, o que já está ocorrendo nos Estados Unidos com o FED atuando gradualmente para retirar o incentivo monetário e não dá para “brincar de expansionismo”. Porém, segundo ele, não existe a sensação que estamos caminho para uma crise, pois não estamos em uma grande bolha. Além disso, disse: “Não dá para esperar que o ano que vem maravilhoso, mas há um certo exagero em pensar que o país enfrentará um ambiente muito ruim”.
Sobre o fato dos investidores estrangeiros estarem mais pessimistas do que os locais, o ex-diretor do BCB argumentou que é real esse sentimento e é devido a três fatores: (i) a enorme incerteza que cerca o futuro governo que é mais densa para os gringos; (ii) os preços dos ativos que já descontaram parte importante do risco eleitoral que não torna o Brasil menos atrativo; e (iii) uma situação idiossincrática dos hedge-funds que estão perdendo muito dinheiro no ano e sem apetite para comprar ativos nos países emergentes.
– Samuel Pessoa, economista do FGV-IBRE apresentou uma visão semelhante da situação internacional, enfatizando o que ele chamou de situação de hiper-emprego nos Estados Unidos, que pode ser revertido sem necessariamente haver uma crise. Já sobre o Brasil, ele caracterizou a crise fiscal como um conflito distributivo, que terá que ser resolvido politicamente ou caminharemos em dois ou três anos para uma situação de inflação fora de controle, como na Argentina. Há necessidade de se fazer um ajuste de 4% do PIB ou R$300 bilhões para evitar uma dinâmica perversa da dívida púbica. Segundo o economista, não há solução para esse impasse sem elevar impostos de alguma forma, pois mesmo aprovada a reforma da previdência que já está no congresso, o efeito dessa reforma é paulatino, havendo necessidade de um ajuste ainda maior nos próximos anos.
– Fernando Limongi, cientista politico e professor da FGV-EESP, iniciou comentando o resultado eleitoral nas várias esferas que lhe causou perplexidade e estupefação, citando que 88 deputados, que foram eleitos em outubro desse ano, nunca tinham participado de nenhuma eleição. Esse comportamento do eleitor é fruto de um ambiente anti-político, o que aumenta muito a incerteza sobre a aprovação de reformas no parlamento. Samuel cunhou um termo para os novos entrantes a “bancada da lava-jato”, mas argumentou preocupação, pois essa turma acha que os problemas do Brasil se resumem a corrupção.
Limongi salientou que agora substituímos o presidencialismo de coalizão por um outro de delegação, em que um ministro tem total poder de nomear e governar em nome do presidente, como fez com Paulo Guedes e Sergio Moro. Além disso, o governo vai ter também que delegar a coordenação do governo para que alguém possa dirimir os conflitos e Bolsonaro só dê a palavra final, dado a dificuldade deste em arbitrar diferenças. Há também uma preocupação, expressa por Limongi, com a articulação com as bancadas temáticas, que não são as que tem o poder formal no parlamento. Dada a inexperiência de vários ministros, há o risco de eles serem capturados por grupos de interesse.
Em resumo, o efeito contagio do fim do ciclo de relaxamento monetário mundial pode ser limitado, mas há real preocupação com o poder de articulação e coordenação do novo governo, que necessita urgentemente avançar nas reformas estruturais que diminuam o risco fiscal do governo.

*Professor e Coordenador do Centro Macro-Brasil da FGV-EESP