Morre Kenneth Arrow, mais jovem economista ganhador do Nobel
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Morre Kenneth Arrow, mais jovem economista ganhador do Nobel

Arrow, que morreu aos 95 anos na Califórnia, fez importantes contribuições para a teoria do equilíbrio geral da economia

Economia & Negócios

22 de fevereiro de 2017 | 16h18

Bernardo Guimarães*

Faleceu nesta terça-feira, 21, Kenneth Arrow, um dos maiores economistas da história. Ganhador do Nobel aos 51 anos em 1972, Arrow foi o mais jovem economista a conquistar o prêmio, dividido com John R. Hicks pela importante contribuição para a teoria do equilíbrio geral da economia. Ele morreu aos 95 anos em sua casa em Palo Alto, na Califórnia.

Neste obituário, explico parte de suas contribuições para a ciência econômica.Em que situações o livre mercado funciona de modo eficiente? Quando e que tipo de intervenções do governo podem melhorar o funcionamento da economia e o bem estar da sociedade?

Credit LA Cicero, 11/4/1996, color neg. Kenneth J. Arrow, professor emeritus in economics, Nobel Laureate

(Foto: Linda A. Cicero/Stanford News Service/Creative Commons)

Essa é uma questão fundamental da ciência econômica. Ela está presente nas discussões sobre política econômica, nos cursos de economia da graduação ao doutorado e na pesquisa acadêmica.

A conhecida figura da mão invisível de Adam Smith postula que, sob algumas hipóteses, mercados competitivos levam a uma situação eficiente. Adam Smith, porém, construiu seu argumento com palavras. À medida que nos aprofundamos no assunto, essa maneira de pensar sobre a economia se mostra pouco precisa e pouco clara.

Hoje, quando estudamos essa questão (e outras), usamos modelos matemáticos para formalizar nosso raciocínio. Dessa maneira, é muito mais fácil perceber as hipóteses necessárias para um resultado e entender as limitações de um argumento.

É, porém, difícil construir um modelo matemático que consiga captar os principais aspectos de uma economia de maneira suficientemente rica e que, ao mesmo tempo, seja tratável e gere resultados úteis. Afinal, em uma economia, há muitas pessoas com preferências diferentes e produção de muitos bens com tecnologias distintas. Há mercados de inúmeros bens, de trabalho e de ativos financeiros (pois poupamos e tomamos recursos emprestados, para investir ou consumir no futuro). Há incerteza e risco.

Nos anos 1950, Kenneth Arrow nos mostrou um modelo matemático que captava todos esses aspectos de uma economia, de maneira estilizada mas tratável. Esse tipo de arcabouço ficou conhecido como modelo de equilíbrio geral, por captar a interação entre todas as partes de uma economia.

Seus teoremas permitiam caracterizar os preços (dos bens, do trabalho, dos ativos financeiros) e as transações em uma economia. Mais importante, eles mostravam exatamente sob que hipóteses o livre mercado levaria a uma situação eficiente.

Seu trabalho abriu um enorme caminho para a pesquisa em economia, um caminho que desde então não paramos de trilhar.

Sua pesquisa teve grande influência na maneira como estudamos os benefícios e as falhas do livre mercado, mas também em muitas outras áreas da economia.

Por exemplo, Bancos Centrais de todo o mundo utilizam modelos macroeconômicos para tentar entender como a economia deve reagir a medidas de política econômica. O modelo do Banco Central do Brasil é o chamado SAMBA. Esses são modelos de equilíbrio geral – muito maiores e diferentes dos propostos por Arrow, mas construídos sobre a base que ele montou.

Kenneth Arrow também criou outras áreas de pesquisa em economia e política. Uma de suas contribuições fundamentais é o chamado teorema da impossibilidade de Arrow. A ideia aqui é a seguinte: em uma democracia, queremos que as decisões de política saiam da agregação das preferências individuais. Como então deve ser o mecanismo de votação para que essa agregação se dê de maneira consistente e satisfatória?

Arrow mostrou que, de maneira geral, não há sistema de votação (ou de agregação de preferências) que dê conta dessa tarefa. Qualquer sistema estará sujeito a inconsistências. Desde então, um campo de pesquisa se dedica ao estudo das formas de traduzir preferências das pessoas em escolhas políticas.

Por fim, Kenneth Arrow também contribuiu para a ciência econômica com a formação de inúmeros pesquisadores. Em particular, Arrow foi o orientador de doutorado de John Geanakoplos, hoje professor em Yale, que foi o orientador de Stephen Morris, hoje professor em Princeton, que foi o meu orientador. Este deve ser um dentre os muitos obituários de Ken Arrow escritos por alguém que ele, direta ou indiretamente, ajudou a formar.

*Professor titular da FGV/EESP, PhD em economia por Yale

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