O Copom e a Tempestade Perfeita
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O Copom e a Tempestade Perfeita

A disparada dos preço da energia lá fora é mais um fator a complicar a estratégia do COPOM em 2022, além da crise hídrica e da eleição.

mosaicodeeconomia

28 de setembro de 2021 | 12h58

 Marcelo Kfoury Muinhos*

O diagnóstico que o choque inflacionário é transitório está sendo abandonado em todo mundo. O aumento da energia, os gargalos nas cadeias globais de abastecimento de produtos industrial e a disparada no preço dos alimentos viraram uma dor de cabeça para os bancos centrais de todo mundo. Prova disso é o aumento recente dos juros de 10 anos nos Estados Unidos, que subiu 20bps na última semana, antecipando uma subida mais tempestiva nos juros.
No Brasil, já tínhamos visto o espalhamento dos aumentos para todos os preços mesmo com um mercado de trabalho ainda com desemprego elevado. O primeiro choque foi no preço das commodities que, quando cotadas em reais, dispararam, ainda no segundo semestre do ano passado, elevando assim o preço dos alimentos e dos produtos industriais. No primeiro semestre de 2021, vimos os combustíveis dispararem e, mais recentemente, temos a forte elevação da energia elétrica com a crise hídrica. Só para ilustrar, os preços dos alimentos no domicílio já subiram 15% nos últimos doze meses, os preços industriais 10,1% e os administrados 13,7%. (Figura abaixo)
O BCB já vem subindo os juros desde março e deve elevá-lo até 8,75% no final do ano. Pela ata divulgada hoje (28/08/21), o Copom sugere que seguirá aumentando a Selic em 1 p.p. por reunião, mas não há sinal de quanto será a taxa terminal. De qualquer maneira, será uma tarefa hercúlea trazer a inflação, que deve terminar 2021 perto de 9%, para baixo de 4%. A expectativa de inflação do Focus é de 4,12%, já a projeção do Banco Central para 2022 é de 3,7%, um pouco acima da meta de 3,5% para o ano.
Os riscos apontam para cima, principalmente agora que deve estar se fechando a janela para o real se apreciar, pois o aumento dos juros, lá fora, é tradicionalmente um fator importante para depreciar as moedas dos países emergentes. O aumento dos preços das commodities geralmente traz apreciação do real, mas, como no ano passado, fizemos um grande esforço fiscal e monetária para atenuar os efeitos da pandemia, o real não acompanhou os preços das commodities e se enfraqueceu.
Outro fator de preocupação é a situação fiscal. Cada vez nos parece mais ameaçada a regra fiscal do teto dos gastos. Já há uma antecipação nos cálculos dos políticos preocupados com a reeleição e, nessas situações, a tentação de se abandonar quaisquer regras de contenção dos gastos aumenta. O mercado sempre está atento a esses movimentos e pode ocorrer volatilidade nos preços dos ativos econômicos, dificultando ainda mais o controle da inflação.
Por último, mas não menos importante, temos uma conjunção de extrema gravidade hídrica com a crise internacional do preço da energia que pode trazer não só novos aumentos na energia elétrica, mas até necessidade de diminuição forçada na utilização da energia.
O balanço de riscos para a economia e principalmente para a inflação nos tira o sono, e 2022 é ano de eleição com o presidente mal posicionado para se reeleger, o que pode aumentar o risco de uma recaída populista. Principalmente agora, que  ele não pode mais contar com a melhora do cenário econômico para se recuperar nas pesquisas eleitorais, o risco populista aumenta.

*Professor e Coordenador do Centro Macro-Brasil da FGV-EESP

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