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O Fracasso do PSDB e MDB Colocam a Democracia em Risco

O que professores de Harvard nos dizem sobre a eleição de 2018

mosaicodeeconomia

01 Outubro 2018 | 15h27

Leonardo Weller*

 

A maior surpresa dessas eleições é o desmonte do centro. Esse fenômeno é mais relevante do que a liderança de Bolsonaro nas pesquisas eleitorais por um simples motivo: Bolsonaro cresceu justamente porque o centro perdeu votos.

Boa parte dos eleitores do PSDB mais identificados com a direita e menos tolerantes com a corrupção migraram para a candidatura de Bolsonaro. O caráter anti-Lula desse voto não redime os tucanos de seu fracasso. Se Lula e o PT cometeram erros e delitos, o PSDB foi incapaz de se apresentar como alternativa.

A Lava Jato causou mais estrago no centro do que na esquerda – haja vista a popularidade de Lula. Escândalos de corrupção ligados a Temer, Aécio e governos estaduais do PSDB geraram um grave desgaste de legitimidade que explica o fraco desempenho de Geraldo Alkmim. Henrique Meirelles, o candidato do MDB, o outro partido conservador de peso, obteve até agora resultados ainda mais pífios.

O massacre de Bolsonaro sobre o centro é um indício de que nossa democracia corre perigo. Essa é a conclusão que se chega ao ler Seteven Levitsky e Daniel Ziblatt, dois professores de Harvard que publicaram o livro do ano em ciência política: How Democracies Die (“Como morrem as democracias”). O livro é uma obra de divulgação das pesquisas que esses autores desenvolveram nos últimos anos, cujos resultados são de grande relevância para o que estamos vivendo atualmente no Brasil.

Ziblatt lançou, no ano passado, o livro Conservative Parties and the Birth of Democracies (“Partidos Conservadores e o Nascimento da Democracia”), que contrasta o sucesso da democracia britânica com o fracasso da alemã no final do século XIX e início do XX.

Segundo Ziblatt, o Tory Party, o Partido Conservador do Reino Unido, funcionou como um avalista da democratização britânica. Antecipando uma série de reformas eleitorais que universalizaram o sufrágio masculino, os tories criaram núcleos regionais difusores de uma ideologia conservadora capaz de unir boa parte da população às classes abastadas. O partido conquistou votos ao defender a monarquia, a Igreja Anglicana e o direito de propriedade. Os tories conseguiram, assim, evitar que a democracia desencadeasse mudanças institucionais bruscas frente às quais as elites teriam apelado para soluções autoritárias.

O principal ponto de Ziblatt é que os conservadores protegeram o sistema democrático ao prevenir a ascensão de radicais de direita. Por exemplo, o Tory Party impediu que nacionalistas ferrenhos lançassem o Reino Unido em uma guerra contra rebeldes republicanos irlandeses. Para o autor, o conflito teria ameaçado a democracia britânica.

Já a Alemanha não tinha um partido conservador forte. A divisão do país entre católicos e protestantes refletiu-se em partidos pequenos e ruins de voto.  Os conservadores usaram a onda nazista para chegar ao poder em 1933. Eles achavam que controlariam Hitler em uma aliança de centro-direita – o que se seguiu é de conhecimento de todos.

Levitsky consolidou suas principais ideias em Competitive Authoritarianism (“Autoritarianismo competitivo”). O livro chama atenção para o crescente número de regimes autoritários que se impõem por meio de eleições desleais. O russo Putin e o turco Erdogan são exemplos de ditadores contemporâneos que distorcem as regras do jogo político para perpetuar-se no governo e perseguir críticos.

É crucial que se identifique os futuros autocratas antes que eles sejam eleitos. Levitsky afirma que candidatos com tendências autoritárias costumam pregar a violência contra opositores e duvidar da lisura do processo eleitoral. O livro How Democracies Die salienta o caráter autoritário de Trump. Em entrevista ao Estadão publicada em 23 de julho de 2018, Levitsky afirmou que Bolsonaro (e apenas ele) apresenta características autoritárias nas eleições brasileiras.

O malogro das candidaturas de Alkmin e Meirelles é temerário. O centro composto por PSDB e MDB falhou em sua função de resguardar a democracia. Ao perder legitimidade, estes partidos permitiram que um autoritário chegasse aonde chegou.

A democracia precisa de um novo centro, mas tal reconstrução será lenta. Para agora, é urgente que uma união democrata entre a esquerda e o que sobrou do centro garanta que as eleições sejam livres e limpas no futuro – a começar por 2022.

 

 

*Professor da FGV EESP e doutor em história econômica pela London School of Economics