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Olha a Carta Aberta aí Gente

Mesmo escrevendo carta aberta por romper piso da meta Banco Central deve cortar juros pela última vez em fevereiro

mosaicodeeconomia

10 Janeiro 2018 | 13h27

* Marcelo Kfoury Muinhos

Pela primeira vez na história desse país, o presidente do Banco Central vai ter que explicar, por meio de uma carta ao ministro da Fazenda ,as razões por ter descumprido a meta pelo lado de baixo. A inflação de 2017 alcançou 2,95%, abaixo do intervalo inferior da banda de tolerância de 3%. Portanto, como nunca antes na história desse país, esse jargão do ex-presidente Lula vai ser usado de maneira original para um fato de caráter positivo.

São várias as razões para a derrocada da inflação, mas a principal delas é a deflação dos preços dos alimentos. Após ficar por vários anos subindo ao redor dos dois dígitos (de 2010 a 2016 média de aumento dos alimentos foi de 9,2%) o preço dos alimentos teve uma deflação de cerca de 1,9% no ano passado. Se olharmos então a queda dos alimentos apenas no domicílio a deflação é de 4,8%. A recessão econômica, que enfim diminui os preços dos serviços, também é digna de nota. Inflação de serviços passou de 8,1% na média de 2010 a 2016 para 4,5% no ano passado, dada a queda da demanda agregada e uma desaceleração lenta devida a inércia desses componentes.

Mas agora encerrando a fase de comemorações, houve surpresas negativas no número de dezembro. O teto das expectativas era 0,38% e veio 0,44%. O mesmo herói do ano, alimentos no domicílio, passou de deflação de 0,72% em novembro para um alta de 0,42 em dezembro. Além disso a inflação dos administrados continua pressionando com altas na energia elétrica e na gasolina.

Mesmo a inflação estando num nível bem baixo nos últimos doze meses, sendo ainda recorde de baixa da inflação no regime de metas e menor fechamento de ano desde 1998, olhando para frente parece que o corte de juros de março está subindo no telhado. Ninguém pôs em dúvida o corte de 25bps na próxima reunião na primeira semana de fevereiro já telegrafado pelo banco central, mas o cenário piorou um pouco para um corte adicional em março. Portanto, o consenso do mercado para a Selic deve ser que a taxa irá para 6,75% e aí permanecerá por todo o ano.

A taxa de juros ficará todo o ano num patamar condizente com um afrouxamento monetário, pois ao situarmos uma taxa real efetiva um pouco abaixo de 3% (PreDI Jan 19 está a 6,82 e expectativa de inflação de 2018 em 3,95) é bastante provável que esse patamar esteja abaixo dos juros de equilíbrio. As estimações mais confiáveis dos juros de equilíbrio estão no intervalo entre 4-5%, portanto confortavelmente acima dos juros reais efetivos. Além disso, se estivermos certos sobre a recuperação da economia neste ano, que já está contratada, ao redor do final do ano, parte desse estímulo monetário já pode ser retirado. Portanto espero alta de 150 pontos da Selic em 2019, para retirar esse estímulo monetário descrito acima.

Há dois riscos (eleições em outubro e a situação financeira internacional) para esse cenário otimista, onde  a inflação e  o crescimento voltam ao equilíbrio ao longo do ano, com inflação indo para 4% e crescimento ao redor de 2,5%. Tenho escrito insistentemente nesse blog sobre os riscos de se eleger um populista pouco comprometido com as reformas, e se olharmos para as pesquisas eleitorais esse risco nos parece iminente atualmente. Turbulência nos preços dos ativos pode acontecer devido retira de incentivos monetários de maneira um pouco mais rápida do que esperado, mesmo sendo menos provável, também está no radar. De qualquer maneira, a economia brasileira está no melhor momento em termos de cenário e fundamentos nos últimos cinco anos, e estamos atentos, mas confiantes que agora é para valer.

*Professor e Coordenador do Centro Macro-Brasil da FGV-EESP