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Por Enquanto o Movimento no Câmbio Vem de Fora

As projeções de cambio para o final do ano consideram a aprovação de reformas fiscais no próximo ano o que as tornam consideravelmente otimistas

mosaicodeeconomia

27 Abril 2018 | 14h10

*Marcelo Kfoury Muinhos

Há um dito comum no mercado que diz: o cambio é a variável que Deus criou para dar humildade aos economistas. Não só é tarefa inglória prever os destinos do cambio, mas mesmo as causas da sua volatilidade nos últimos meses também apresentam controvérsias. De qualquer maneira, arrisco a dizer que a desvalorização recente do Real pode ser atribuída quase que exclusivamente a razões externas.

De janeiro até abril, o real veio de 3,15 para 3,50, alta quase que continua, mas essa desvalorização foi em linha com outras moedas. Ao se considerar a média do mês de janeiro, a desvalorização é ainda menor, pois o mínimo de 3,15 foi no dia seguinte a decisão do TRF-4 em confirmar a sentença do ex-presidente Lula, diminuindo significativamente as suas chances de ser candidato na eleição de outubro. Portanto, pegando no ano até agora, o real desvalorizou 7,8%, o peso argentino 10% e o Rublo russo 8% e a lira turca 7,9%.

Houve um aumento da aversão ao risco em relação aos países emergentes, facilmente detectado pelo aumento do prêmio de risco desses mesmos países, que subiram cerca de 20% no mesmo período. O movimento foi muito parecido, o que descarta um fator idiossincrático apenas brasileiro.

A causa mais óbvia desse movimento é a mudança na precificação dos juros nos Estados Unidos. Em toda a curva de juros houve elevação. Aqui enfatizo a elevação dos juros de 10 anos, que estava em 2,45% no início do ano e durante essa semana (última abril) ultrapassou os 3%. Mesmo a curva de dois anos alcançou pela primeira vez em dez anos o patamar de 2,5%.

A razão para esse movimento nos juros é  a inflação corrente nos Estados Unidos, que está em leve ascensão, mas é suficiente para que o mercado da considere que o FED deva reagir mais fortemente no médio prazo. A inflação, independentemente do índice que se olha, está subindo nos últimos meses, mas se encontra num nível similar ao alcançado no mesmo período em 2017. O que pode estar assustando é a subida do petróleo, que juntamente com um uma atividade economia mais vigorosa nos Estados Unidos, antecipa uma ação mais forte do FED.

Como é um movimento de rearranjo nos preços dos ativos dos países emergentes e não há excesso de volatilidade na moeda local, não vejo necessidade do Banco Central interferir tentando suavizar o movimento. Nem acho que isso seja um grande problema para o Copom em relação aos próximos passos da política monetária. Há expectativa de corte em maio de 25bps e interrupção do ciclo de afrouxamento de julho, conforme já antecipado pela autoridade monetária.

Algum repasse do câmbio para a inflação pode até ajudar a inflação a retornar à trajetória das metas de inflação. Por enquanto, não me parece que a recente desvalorização tenha piorado a confiança na economia. A sensação de perda de ritmo na economia não vem do movimento do câmbio nem da economia mundial, mas sim das preocupações com a própria retomada e com os riscos eleitorais sendo puramente interno.

O risco idiossincrático puramente interno pode vir com a eleição de um presidente, que não esteja convencido da necessidade de avançar mais no esforço de consolidação fiscal. Aparentemente o mercado ainda não puniu os ativos brasileiros, pois está considerando a aprovação da reforma da previdência e manutenção das medidas que garantam a volta de números fiscais pelo próximo presidente em 2019. Sem isso, voltamos ao caos do início do segundo governo da Dilma Rousseff.

Concluindo, muito difícil cravar uma projeção para o dólar no final do ano, dado o risco eleitoral e a situação internacional. Porém, há uma não linearidade, com um cenário politico reformista sendo assumido nas projeções, significando então que é mais fácil o câmbio ir a quatro do que voltar a três.

*Professor e Coordenador do Centro Macro-Brasil da FGV-EESP