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Seminário FGV-EESP: Responsabilidade Fiscal e Crescimento Econômico

A política fiscal e as incertezas políticas pressionam o câmbio afetando a inflação e o crescimento econômico.

mosaicodeeconomia

15 de outubro de 2021 | 10h42

Marcelo Kfoury Muinhos*

Na quarta-feira (13/10), coordenei um webinar sobre conjuntura econômica e política com a participação de Solange Srour, economista-chefe do Credit-Suisse no Brasil; Christopher Garman, managing director for the Americas do Eurasia Group e Marcos Mollica, Head Portfolio Manager do Opportunity Total Fund.  O seminário pode ser visto no youtube:https://youtu.be/K7FN1cI5304

Neste artigo traço um resumo das principais discussões do seminário.
Sobre a conjuntura internacional, Marcos Mollica salientou que há uma acomodação natural do crescimento, após a recuperação forte pós pandemia. A normalização das atividades com a diminuição do isolamento social já promoveu uma recuperação forte e a desaceleração na sequência é normal, mas não acha que estamos caminhando para recessão. Podemos resumir a situação internacional em 3 fatores enumerados abaixo:
– Na China, além da desaceleração, há mudança de mudança de diretriz de política econômica, não sendo o crescimento acelerado o único objetivo. A redistribuição da renda, melhor qualidade de vida, diminuição da emissão de carbono passaram a ser também metas perseguidas. Nesse contexto, está se buscando diminuir a alavancagem do setor imobiliário. Essa mudança exige crescimento menos acelerado, o que pode atenuar os preços de commodities. Na opinião dele, qualquer erro de avaliação na dosagem dessas políticas, pode levar a mudanças de políticas para evitar desaceleração excessiva aos moldes chineses.
– Países Emergentes – há um dominó de países tendo que apertar a política monetária devido ao surto de inflação mundial, tendo sido o Brasil o primeiro a puxar essa fila. Países, que tem menos capacidade de absorver o choque de oferta inflacionário sem perder credibilidade, estão tendo que subir os juros para não perder a coordenação das expectativas de inflação.
– Estados Unidos e Inglaterra mudaram recentemente a sinalização da política monetária. O FED deve começar a diminuir o ritmo de compras e deve começar a subir os juros antes do que o mercado esperava, o que tornará a situação internacional mais desafiadora para os países emergentes.

Em relação à atividade econômica doméstica, eu apresentei a minha visão sobre os quatro problemas que devem limitar o crescimento no próximo ano.
– A inflação está bem mais alta mesmo com alto desemprego, o que está obrigando o BCB a subir fortemente os juros.
– A turbulência política e a pressão para aumentar os gastos no próximo ano estão fazendo com que os preços dos ativos também piorem as condições financeiras.
– A crise hídrica não só pressiona a inflação, como também pode ser uma restrição de oferta para o crescimento no próximo ano.
– Conjuntura internacional desfavorável aos países emergentes, conforme descrita acima.
A Solange Srour ponderou que no próximo ano o crescimento deve ser ao redor de 1%, exatamente por esses fatores enumerado acima, sendo inclusive menor do que a nossa estimativa de PIB potencial, que flutua ao redor de 1,5%. Marcos Mollica está até um pouco mais pessimista com a atividade, considerando que nem em 1% conseguiremos atingir.

Em relação a inflação, por mais que tenha sido causado por fatores internacionais ligado ao choque de oferta, a depreciação cambial potencializou o efeito do aumento das commodities quando traduzidas na moeda doméstica. Houve um afrouxamento simultâneo muito forte das políticas monetárias e fiscais. Um aumento dos gastos públicos para combater os efeitos da pandemia foi necessário, mas feito ao mesmo tempo de juros de curto prazo excessivamente baixos, diminuiu o apetite pelos títulos públicos brasileiros, acarretando em saída de capital e depreciação da moeda. Compartilhei esse diagnostico com a Solange.
Houve também concordância sobre a conveniência de se intervir no câmbio para episódios relacionados a falta de liquidez ou volatilidade excessiva, mas não para tentar segurar a inflação. Solange atribui a desvalorização do câmbio a questão fiscais e incertezas políticas com a proximidade das eleições, e por isso, a pressão sobre o câmbio não deve arrefecer no curto prazo. Marcos já vê mudança dos parâmetros de intervenção do BCB, mas ainda apenas para tratar de questões pontuais como o problema do overhedge. (Bancos precisaram de US$17 bilhões para diminuir o hedge de suas operações com mudança na legislação). Os dois analistas consideram que o câmbio nominal só deve voltar a se apreciar, se houver políticas econômicas solidas, em 2023.

Em relação a política monetária, Solange e Marcos projetam a Selic em março um pouco abaixo de 10%. Ela projeta que o BCB perderá o teto da meta mais uma vez em 2022 (projeção de IPCA em 5,2%), sendo o fim do ciclo relacionado ao maior peso dada a projeção de inflação de 2023, a partir do 2º trimestre do próximo ano. Já Marcos não está tão pessimista com a inflação do próximo ano, projetando uma inflação pouco acima da meta, se a Selic realmente alcançar 9,5% no fim do ciclo.

Em relação aos problemas fiscais, Chris Garman pondera que mais uma vez nas negociações da emenda constitucional dos precatórios e a definição do financiamento do Auxílio Brasil, a classe política novamente namorara a beira do precipício. A equipe econômica deverá ceder um pouco mais e no final do processo provavelmente o aprovado será algo menos feio do que o mercado teme. O pagamento dos precatórios deve ser feito em 2022 num montante menor do que originalmente defendido pela equipe econômica. Por fim, o presidente não terá peito para ultrapassar certas linhas vermelhas, que inviabilizariam a permanência de equipe econômico, o que poderia jogar o país em uma crise de confiança. Marcos e também Garman concordam que poderá haver prorrogação de nova rodada de auxilio emergencial de pelo menos dois meses, dado que 25 milhões de pessoas, que recebem auxilio emergencial, não se enquadram no desenho do novo Auxilio Brasil.

Em termos políticos, segundo Garman, o presidente está pagando um custo político alta pela péssima gestão da pandemia, causando um recuo da sua popularidade. A aprovação, numa escala binária, está ao redor de 30% e num estudo feito pela Eurasia/Ipsos de 300 casos de eleição de incumbente, o limiar que aumenta as chances de reeleição é de 40%. O cenário econômico adverso com inflação alta e baixo crescimento pode dificultar a recuperação da popularidade para esse patamar no próximo ano, o que traz favoritismo para o ex-presidente Lula na eleição de 2022. Porém, seria muito difícil o presidente nem mesmo conseguir chegar ao segundo turno da eleição, por isso a Eurasia só dá 20% de chance para um terceiro candidato enfrentar o presidente Lula nas eleições.
O problema para o candidato da terceira via não é a falta de consenso em torno de um nome, mas sim a abertura de espaço eleitoral no centro do espectro político, havendo a necessidade de uma deterioração adicional do presidente a ponto dele nem ter apoio suficiente par ir no segundo turno da eleição presidencial. Adicionalmente, o terceiro nome deveria se apresentar competitivo o suficiente para ter chances contra o ex-presidente Lula no segundo turno. A piora do cenário econômico não apenas tem que inviabilizar a ida do atual presidente ao segundo turno, mas também conseguir a mágica de se apresentar ao imaginário coletivo mais atraente nesse cenário adverso do que o presidente Lula, que ainda é visto como o novo “pai dos pobres”.
Na campanha eleitoral, Garman vê o ex-presidente Lula mais moderado em termos políticos, tentando se apresentar com conciliador de centro a lá “Biden”, mas não necessariamente em termos econômicos com uma campanha defendendo mais gastos para atenuar os problemas sociais do pós-pandemia. O eventual novo governo será pragmático, mas não deve ser moderado em termos fiscais como foi em 2003. Os desafios sociais pós pandemia têm gerado pressões por gastos orçamentários para atenuar desigualdades sociais, diminuindo o desemprego e aumentando as oportunidades em todos os países emergentes e não será o Lula que navegará contra essa maré. De qualquer maneira, os graus de liberdade fiscais serão bem mais reduzidos do que no passado, o que aparentemente, os líderes petistas ainda não se conscientizaram. O eventual 3º mandato pode ter muito mais dificuldades do que em 2003, quando as finanças públicas estavam em ordem e a China estava sendo a locomotiva do crescimento mundial.

*Professor e Coordenador do Centro Macro-Brasil da FGV-EESP

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