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Vai Que é Tua Taffarel

A altíssima probabilidade de vitória do preferido do mercado já está quase precificada então o ponto de compra de dólar e venda de bolsa não tarda

mosaicodeeconomia

10 Outubro 2018 | 14h52

*Marcelo Kfoury Muinhos

A onda Bolsonaro nos últimos momentos antes do primeiro turno deixou poucas dúvidas com relação ao resultado do segundo turno. A pesquisa Datafolha hoje deve corroborar essa análise. Se não há necessidade de grandes elucubrações sobre quem será o próximo presidente, é mais relevante especular sobre quais serão as prioridades do eleito no período de sua lua de mel.
Segundo análise de Jairo Pimentel do FGV-CEPESP, num total de 272 eleições com segundo turno desde 1998, quando a diferença entre o primeiro e o segundo colocados no primeiro turno é superior a 15 pontos percentuais, a chance de virada é muito baixa, ao redor de 5%. Somada a isso, existe toda a carga anti-petista do pleito presidencial tornando altamente improvável que uma virada aconteça. O próprio mercado financeiro também aponta nessa direção, com fortes quedas no câmbio e forte alta nas bolsas, com o mercado caminhando para próximo do cenário esperado para uma vitória do candidato Bolsonaro.
Os oponentes no segundo turno também não me parecem extremamente motivados a suavizarem os discursos para atrair o eleitorado dos candidatos derrotados no primeiro turno. A aproximação está sendo feita de maneira quase gravitacional para o campo de cada candidato. Ciro Gomes tende a apoiar o candidato petista e Amoedo indo para Bolsonaro, já Alckmin segue a tradição tucana e fica em cima do muro.
Portanto, se há pouca dúvida quanto quem será o próximo presidente, houve uma surpresa positiva para o eleito na composição do congresso. Além da renovação grande, há no congresso um perfil bem mais afinado com o provável futuro presidente, sendo licito indagar se o capital político será bem gasto.
Há um clima de euforia que será medido nos indicadores de confiança nas próximas semanas, e com o fim da incerteza sobre as eleições, existe a expectativa de um surto de crescimento no início de 2019. Especulo que poderá haver um fenômeno parecido com o que houve logo após a eleição do presidente Trump com um aumento do consumo e investimento nos primeiros semestres de 2019. O cenário Focus, que me parecia muito róseo algumas semanas atrás com crescimento de 2,5%, inflação na meta e cambio em 3,70 em 2019, agora ficou mais realista. Considerando a grande vitória política do candidato mais apreciado pelo mercado financeiro e pelo empresariado em geral, pode haver um choque positivo de expectativas no curto prazo. Em termos vulgares, o bode petista foi tirado da sala.
Porém, a situação fiscal não aceita muitos desaforos e medidas duras podem ser esperados nos primeiros 100 dias. Infelizmente, as primeiras declarações sobre a agenda de reformas foram pouco alvissareiras, inclusive sendo descartada a votação da reforma da previdência ainda esse ano, que já está pronta no Congresso. A própria alta renovação do parlamento tirou dos derrotados qualquer ânimo para se discutir uma pauta pouquíssimo popular. Aliás, os relatores das principais reformas aprovadas durante o governo Temer foram castigados nas urnas.
O plano econômico proposto por Paulo Guedes é muito generalista e apresenta promessas mirabolantes com receita de R$ 1 trilhão com privatizações. Também vejo com muita preocupação a proposta de imposto único, pois esse imposto é altamente regressivo, sendo além um tributo que vai de encontro  a uma tendência mundial de desagregar a cadeia produtiva. Há um norte liberalizante que precisa ser melhor detalhado para não se frustrar as expectativas. Pois se há uma coisa que uniu o eleitorado em torno de Bolsonaro foi o anti-petismo. Porém, se não houver dinamismo e racionalidade, que tragam resultados concretos em poucos meses, a lua de mel passará e as expectativas se ajustarão.
Concluindo, dada a alta probabilidade de vitória do candidato de agrado do mercado pode haver ainda fluxo de capital mantendo esse cenário. Mas, dados os grandes desafios à frente e o amadorismo gerencial do novo presidente, me arisco a dizer que está próximo o momento de compra de dólar e venda de ações no mercado brasileiro.

*Professor e Coordenador do Centro Macro-Brasil da FGV-EESP