A guerra em torno da demanda

Paul Krugman

26 de janeiro de 2011 | 16h12

Algo realmente estranho acontece com o debate sobre a política econômica a despeito da Grande Recessão e suas consequências – ou talvez a questão básica seja que os acontecimentos revelaram a verdadeira natureza do debate, despindo-o de algumas ilusões. É uma história maior do que poderia sugerir qualquer outro ponto da disputa – por exemplo, sobre o tamanho do multiplicador, ou os efeitos do abrandamento quantitativo. Basicamente, apesar do que eu tenha dito que seja obviamente um déficit de demanda agregada, o que estamos vendo é um ataque total à própria ideia de que o lado da demanda é importante.

Evidentemente, não se trata de algo totalmente novo. A teoria do ciclo econômico real (CER) constitui há 30 anos uma poderosa força da economia acadêmica. Mas, na minha opinião, os que a defendem pouco influíram sobre a discussão pública ou política simplesmente porque o que eles disseram parecia (e era) desconectado de uma experiência concreta.

Agora, entretanto, testemunhamos um ataque muito mais amplo à economia do lado da demanda. Mais do que isso, está ficando evidente que muitas pessoas não apenas discordam da ideia de que a demanda é importante como a consideram detestável ou incompreensível, ou ambas as coisas. Muitas vezes recebo comentários dizendo que não posso acreditar no que afirmo a respeito da política monetária ou fiscal, que nenhuma pessoa sensata poderia acreditar que imprimir dinheiro ou gastar provocando um déficit aumentará a produção e o emprego – não importa se me limito a afirmar o que os livros sobre economia têm repetido nos últimos 62 anos.

Então, o que é que está acontecendo?

Em primeiro lugar, Keynes estava certo: A lei de Say – a ideia de que a renda deve ser gasta, e portanto que a oferta cria sua própria demanda – está realmente no cerne da questão. Muitos não conseguem entender que é possível que exista um déficit geral da demanda. O motivo pelo qual sempre gostei da história da cooperativa de baby-sitting é que ela é um exemplo em escala humana da possibilidade de existirem déficits de demanda. Mas, pela minha experiência, se você tenta contar a história a alguém que esteja convencido de que a demanda jamais poderia constituir um problema, ela pode ricochetear: assim que você acaba, as pessoas voltam a falar que a renda deve ser gasta em alguma coisa, portanto é possível que nunca venha a ocorrer uma falta de demanda, e que todo aumento dos gastos de uma pessoa deverá levar a uma queda igual dos gastos de outra.

Em segundo lugar, os motivos pelos quais muitos acham detestável a ideia de uma demanda inadequada estão, em parte, relacionados a conceitos de moralidade. Tenho escrito um bocado sobre moralidade monetária no contexto da inflação e do padrão ouro; mas isto é algo mais profundo do que política. Está ficando claro para mim que um número considerável de pessoas que escrevem sobre economia acha profundamente repugnante toda a ideia de que a economia possa ser afetada porque as pessoas poupam demais, ou estão insuficientemente dispostas a gastar. Sou o tipo de pessoa que acha interessante o conceito de que às vezes a virtude é um vício e a prudência uma insanidade; mas é evidente que muitas pessoas acham esta ideia má. O mundo não deveria ser assim – e portanto não é.

Em terceiro lugar, os monetaristas – os monetaristas da velha escola, como Friedman, que se preocupam com os agregados monetários, ou da nova escola, segundo a qual o Federal Reserve pode e deve visar o PIB nominal – quer tenham consciência disto quer não, são parte do eixo do mal monetário no que diz respeito aos que menosprezam a demanda. Talvez acreditem que podem limitar o âmbito do raciocínio do lado da demanda, justificando uma política tecnocrática no banco central, mas não mais do que isto. Mas, do ponto de vista dos que não compreendem como a demanda possa ser realmente importante, eles estão essencialmente do mesmo lado dos keynesianos. E de fato estão; se aceitarmos a ideia de que o problema é a demanda inadequada, o papel da política fiscal em contraposição à política monetária é apenas um detalhe técnico (embora de enorme importância prática).

Pensando bem, é chocante. Temos aqui uma enorme façanha intelectual realizada a duras penas, uma façanha que é responsável pelo mundo que vemos de fato, e no entanto está sendo menosprezada porque não se coaduna com os preconceitos ideológicos. Quando começa uma coisa desse tipo, aonde irá parar? O que acontecerá a seguir, como a gente sabe, é que a teoria da evolução terá o mesmo tratamento. Ora!

Falando seriamente, tudo isto é muito triste – e perigoso. Compreender o lado da demanda, na minha opinião, foi muito importante para que evitássemos uma reedição da Grande Depressão; se um número suficiente de pessoas tivesse tido esta compreensão, poderíamos ter evitado até a Depressão em escala menor pela qual estamos passando. Mas a ignorância voluntária está em marcha – e é provável que nos leve a tratar muito mal da próxima crise.

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