A obra das depressões

Paul Krugman

29 de julho de 2010 | 17h25

Muitas coisas me surpreenderam desde o início da crise financeira, e poucas dessas surpresas foram boas. Entretanto, um dos traços mais impressionantes do período recente é o retorno pleno de um liquidacionismo típico dos anos 1930 – a ideia de que um declínio econômico serve a um propósito útil, e que estimular a economia, mesmo por meio da política monetária, é um erro.

E, assim, no Financial Times de hoje, temos Raghuram Rajan defendendo que, com o desemprego em 9,5%, o desemprego de longo prazo em patamares recordes e a inflação em queda, o que precisamos fazer é… aumentar os juros:

Esta crise se seguiu a um período, de 2002 a 2004, no qual a política monetária fez esforços excessivos. Os Estados Unidos dedicaram muito de sua capacidade produtiva aos imóveis e aos carros, porque os consumidores tinham facilidade para obter o financiamento necessário para comprar esse tipo de coisa. Com os lares agora lutando para pagar a dívida remanescente, seria razoável esperar deles – ou mesmo pedir-lhes – que voltem a gastar mais do que ganham?

Além disso, se a demanda dos consumidores por imóveis e carros deve agora diminuir, um número significativo de postos de trabalho deve desaparecer permanentemente. Trabalhadores que sabem construir casas, ou como vendê-las e financiá-las, terão de aprender novas habilidades. Isso significa que recursos terão de ser realocados para outros setores para garantir uma recuperação robusta, e não uma simples retomada da gastança anterior. Mas isso não será necessariamente facilitado por taxas de juros baixíssimas.

Tudo isso é sabido por aqueles que estudam a história do pensamento; as diferenças entre o que Rajan diz e aquilo que Schumpeter propôs em meio ao colapso econômico global são mínimas:

Em todos os casos, e não apenas nos dois que analisamos, a recuperação veio por si mesma. Trata-se de um aspecto inegável do poder de recuperação de nosso sistema industrial. Mas isso não é tudo: nossa análise nos leva a acreditar que a recuperação só pode ser considerada sólida se vier por si mesma. Pois uma retomada que seja mera decorrência do estímulo artificial mantém incompleta parte da obra das depressões, acrescentando ao desajuste remanescente novos desequilíbrios que terão de ser liquidados, e assim confrontando a economia com a ameaça de uma nova crise futura. Em especial, nossa história nos proporciona uma suposição contrária às medidas de correção que funcionem por meio do dinheiro e do crédito. Pois o problema fundamental não está no dinheiro e nem no crédito, e políticas desse tipo são particularmente propícias para a manutenção e a acumulação dos desajustes, produzindo dificuldades adicionais no futuro.

escrevi sobre isso antes; mas vou acrescentar alguns números. Será minimamente razoável atribuir ao alto desemprego atual a necessidade de afastar a economia da produção de imóveis e carros?

Está bem, não levei os carros em consideração; alguém com mais tempo livre pode fazê-lo. Vamos analisar a perda de empregos no setor da construção comparada à perda observada em outros setores, desde dezembro de 2007. A comparação se assemelha a isto:

joblosses.png

Se o alto desemprego fosse principalmente uma consequência da transferência para outras áreas dos trabalhadores empregados num setor de construção civil superaquecido, não seria de se esperar que a perda de postos de trabalho se concentrasse nesse setor? Não seria de se esperar que o emprego em outros setores estivesse em ascensão? Entretanto, a grande maioria dos postos de trabalho perdidos ocorreu em setores da economia pouco relacionados à bolha imobiliária. É verdade que, em termos porcentuais, o desemprego aumentou mais no setor da construção, mas não há nada na argumentação de Rajan que explique por que não deveríamos usar medidas econômicas na tentativa de evitar grandes perdas de empregos em partes da economia que não apresentam superaquecimento.

Eu diria até que, mesmo para quem acha que a taxa de desemprego estrutural aumentou, ela certamente não aumentou o suficiente para evitar a aproximação da deflação – e, se tal taxa de fato aumentou, o declínio econômico pode ser considerado uma causa de tal aumento, e não uma consequência dele.

Enfim, voltemos ao começo: é impressionante e deprimente, em muitos sentidos, que ainda tenhamos de revisitar debates tão antigos.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.