Acabou-se toda a decência?

Paul Krugman

20 de setembro de 2010 | 18h42

Permita-me recomendar novamente a excelente explicação de Brad DeLong para o motivo pelo qual as pessoas que pertencem ao 1% mais rico da população, apesar de ganharem o dobro do que seus correspondentes na década de 80, se sentem mais pobres hoje do que naquela época. Entretanto, ao pensar mais a respeito do assunto (e debatê-lo com Robin), me parece que há algo que Brad não disse e que merece ser mencionado – a mudança nas normas sociais.

Mesmo na década de 80, havia sem dúvida muitas pessoas pertencentes ao 1% mais rico ou próximas dele que sentiam pena de si mesmas, ao menos durante parte do tempo. Trata-se de algo que pode acontecer a todos, afinal: levo uma vida bastante privilegiada (faço parte da faixa de renda que pagará mais impostos dentro do novo plano de Obama), e ainda assim descubro meus momentos ocasionais de inveja. (Como assim? Iremos de carro até o aeroporto de São Paulo em meio a todo esse trânsito? Será que eu não mereço um helicóptero?)

Mas 30 anos atrás, pessoas de renda alta – mas não exorbitante – costumavam se envergonhar das próprias queixas, ou ao menos tinham a sensação de que seriam ridicularizadas se dessem voz a estas reclamações. Hoje em dia, todos os limites foram derrubados. A polêmica envolvendo os comissários Henderson e Stein é a exceção que comprova a regra: eles não fariam tamanho espetáculo se não estivessem acostumados a nadar em círculos sociais nos quais queixar-se de ter apenas 9 ou 10 vezes a renda da família média é considerado totalmente aceitável.

Em breve, teremos nas grandes revistas debates sérios e absolutamente desavergonhados sobre o problema dos servos.

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