Amigo, você tem um paradigma econômico?

Paul Krugman

31 de agosto de 2010 | 16h49

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Há alguns meses um de meus mentores originais na ciência econômica – uma pessoa que obteve seu diploma no fim da última era glacial – me perguntou se haveria algo a respeito da crise atual que exigisse uma análise fundamentalmente nova e original. Concordamos que a resposta seria negativa.

Esta é uma das histórias que não são contadas a respeito da bagunça na qual nos encontramos. Ao contrário do que dizem por aí, a parcela de nossos problemas que encontramos dificuldade para compreender é mínima – ao menos para aqueles que conhecem os fundamentos básicos e antiquados da macroeconomia. Na verdade, é provável que uma pessoa que tivesse aprendido economia a partir da edição original do manual de Samuelson, publicada em 1948, se sentisse bastante à vontade no mundo contemporâneo. Se os economistas parecem estar totalmente perdidos, isso é consequência de terem desaprendido a sabedoria antiga. Se as políticas econômicas fracassaram, isso é consequência de os responsáveis por elas terem escolhido não acreditar em seus próprios modelos.

Do ponto de vista analítico: muitos dos economistas de hoje rejeitam sem pestanejar o modelo keynesiano, preferindo acreditar que a causa das recessões esteja numa queda na oferta, e não numa queda na demanda. Mas essas abordagens rivais têm implicações claras. Se um declínio for o reflexo de algum tipo de choque na oferta, as políticas monetárias e fiscais seguidas desde o início de 2008 teriam os efeitos previstos para um mundo restrito pela oferta: a grande expansão da base monetária teria levado a uma grande inflação, e os amplos déficits orçamentários deveriam ter provocado uma alta expressiva nos juros. Como você talvez se lembre, muitas pessoas defenderam essa previsão. Por outro lado, a abordagem keynesiana disse que a inflação cairia e os juros permaneceriam baixos enquanto a economia se mostrasse deprimida. Adivinhe só o que ocorreu?

Do ponto de vista das políticas econômicas: sem dúvida podemos debater se Obama teria sido capaz de obter a aprovação de um pacote de estímulo maior. Entretanto, sabemos que seus principais assessores não contextualizaram em termos puramente políticos a defesa de um estímulo pequeno se comparado ao declínio previsto. Em vez disso, eles argumentaram que um plano grande demais poderia alarmar o mercado de obrigações, e que o estímulo fiscal seria necessário somente enquanto uma forma de garantia. Nenhum desses argumentos decorreu da teoria macroeconômica; foram doutrinas inventadas no calor do momento. O Samuelson de 1948 teria sugerido a implementação de um estímulo grande o suficiente para restaurar o pleno emprego – ponto final.

Assim, o que temos aqui não é a carência de um paradigma analítico viável. O desastre que estamos enfrentando é o resultado da recusa dos economistas, tanto dentro quanto fora dos corredores do poder, em aceitar os paradigmas perfeitamente sólidos de que já dispúnhamos.

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