Apuros do Reino Unido

Paul Krugman

27 de abril de 2011 | 16h57

O número ruim do Produto Interno Bruto do Reino Unido não é uma surpresa – aliás, a julgar pela resposta do mercado, tudo indica  que os investidores esperavam alguma coisa ainda pior. Mas quando se dá um passo atrás e observa o que está havendo, a coisa é pior: crescimento zero nos seis últimos meses, com todas as razões para se preocupar com uma visão de futuro negativa à medida que a austeridade de Cameron morder mais fundo.

Jonathan Portes vai à essência do problema:

“Em política fiscal, a mensagem é que devemos ouvir os economistas e não as agências de classificação de crédito. A maioria dos economistas do mainstream defendeu que o impacto da consolidação fiscal do governo sobre a confiança e a demanda de consumo seria negativo; e assim se comprovou.

Enquanto isso, o argumento de que o exagero fiscal era necessário para aplacar as agências de classificação de crédito foi novamente desaprovado pela reação do mercado – ou a falta dela – à advertência da Standard & Poor`s na semana passada sobre os Estados Unidos, onde os rendimentos dos papéis do Tesouro quase não se mexeram.”

Em suma, não existe uma fada da confiança; e a S&P pode chamar vigilantes de bônus invisíveis das profundezas imensas, mas eles realmente não virão quando chamados.

Portes toca, em particular, num ponto que eu procurei defender algumas vezes, aqui e mais recentemente aqui: neste momento, estamos vivendo num mundo em que a economia básica aponta para conclusões absolutamente contrárias às que Pessoas Muito Sérias supostamente devem acreditar, em que observadores radicais baseiam suas visões sobre a economia padrão enquanto tipos ortodoxos se voltam para especulações heterodoxas altamente duvidosas.

Um curso básico de economia, reforçado se quiserem por modelos neo-keynesianos criativos, diz que uma política fiscal recessiva é, bem, recessiva. Mas boa parte do mundo dos organizadores e administradores aderiu à noção exótica de que efeitos de expectativas – a fada da confiança – transformaram uma política recessiva em expansiva. E eles se aferraram a essa crença mesmo quando as supostas evidências históricas em favor da austeridade expansiva foram completamente desmascaradas.

A agora estamos vendo a economia básica em processo de ser confirmada. Eu gostaria de achar que isso mudaria o pensamento das pessoas.

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