As férias do euro propostas por Feldstein

Paul Krugman

17 de fevereiro de 2010 | 17h29

Hoje, Martin Feldstein sugere que a Grécia volte temporariamente ao dracma, reduzindo os custos no país para recuperar a competitividade de suas empresas. Em termos macroeconômicos, isso faz sentido. Mas trata-se de uma proposta impossível; Feldstein precisa ler a obra de Barry Eichengreen. Eis o que Eichengreen tem a dizer sobre o abandono do euro:

“O obstáculo insuperável na tentativa de abandonar a moeda não é econômico nem político, mas processual. Um retorno à moeda nacional exigiria essencialmente que todos os contratos – entre eles os salários do governo, os depósitos nos bancos, os títulos, as hipotecas, os impostos e praticamente tudo o mais – fossem reescritos, com seu valor de face denominado na moeda doméstica.

A legislatura poderia aprovar uma lei exigindo que bancos, empresas, lares e governos reescrevam seus contratos de acordo com essa determinação. Mas, numa democracia, uma decisão como essa seria precedida por extensos debates.

Para que fosse adequadamente implementada, tal mudança teria de ser acompanhada por um planejamento detalhado. Computadores teriam de ser reprogramados. Máquinas de vendas teriam de ser modificadas. Máquinas de cobrança teriam de ser alteradas para evitar que motoristas ficassem presos nas garagens subterrâneas.

Notas e moedas teriam de ser distribuídas pelo país. Basta lembrar do vasto planejamento que antecedeu a estreia física do euro.

Entretanto, não havia naquela época motivo para esperar mudanças nas taxas de câmbio antes da adoção da moeda única e, portanto, o incentivo à especulação monetária era pequeno… Em comparação, se um estado membro decidisse deixar a zona do euro agora… a própria motivação por trás do abandono seria provocar uma mudança na paridade.

Os participantes do mercado saberiam disso. Lares e empresas, esperando que o valor de face dos depósitos domésticos fosse redefinido em liras – perdendo valor diante do euro – , transfeririam seus depósitos para outros bancos da zona do euro.

Os bancos de todo o sistema seriam então alvo de uma corrida por seus depósitos. Acreditando que seus títulos da dívida do governo italiano teriam seu valor de face redefinido em liras, os investidores transfeririam seu dinheiro para outros países da zona do euro, levando a uma crise no mercado de títulos.

Se o fator de precipitação fosse um debate parlamentar a respeito do abandono da lira, seria improvável que o Banco Central Europeu oferecesse ao país amplo apoio de emprestador de último recurso. E se o governo já estivesse numa posição fiscal frágil, ele não poderia solicitar empréstimos para resgatar os bancos e cobrir sua própria dívida.

Esta seria a maior de todas as crises financeiras.”

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