Autenticidade

Paul Krugman

28 de setembro de 2010 | 16h01

Pois bem, Howard Kurtz acaba de publicar um perfil a meu respeito. O estrago não é tão grande.

Mas há algo que me chama a atenção: há no artigo de Kurtz a sugestão de uma atitude que pode ser vista por toda parte – mais especificamente, a ideia de que há algo de hipócrita nas pessoas que se queixam a respeito das políticas atuais e do estado em que a economia se encontra quando sua situação pessoal é bastante confortável.

Isso me faz lembrar de uma resenha que li sobre um filme ruim no qual Mel Gibson interpreta um patriota na Guerra de Independência dos Estados Unidos. O filme fazia questão de caracterizar o personagem de Gibson como apolítico – até que os britânicos o prejudicam pessoalmente; é neste momento que ele se envolve no combate. Como destacou o crítico, isso é uma subversão completa do conceito de patriotismo – a ideia é que a pessoa se importe com a causa independentemente de seus interesses individuais. Na verdade, há algo de particularmente louvável em alguém que se opõe a um regime apesar de, pessoalmente, estar numa situação bastante confortável sob este mesmo regime.

Recapitulando: eu apoio aumentos nos impostos que afetarão diretamente minha renda pessoal, reduzindo-a; me preocupo muito com o desemprego, apesar de meu próprio ganha-pão estar garantido; alerto para o crescimento da desigualdade, apesar de fazer parte da classe que ganhou com a disparidade cada vez maior; estou frustrado com a direção que o país está seguindo, apesar da situação confortável em que me encontro. E tudo isso é motivo para duvidar das minhas motivações?

Atualização: Pensando bem, talvez eu seja mesmo hipócrita – como sugerido em um dos comentários, um americano de verdade teria pedido um hambúrguer. Por sinal, a salada era de camarão com rúcula. Um paladar nada americano!

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